• Ceclin
ago 19, 2009 2 Comentários


Um rio que entrou para a família

Tapacurá // Estudantes do município de Vitória de Santo Antão participam de ações de monitoramento do manancial

Júlia Kacowicz
De repente, foi como se ele entrasse para a família. As crianças e adolescentes passaram a perguntar se ele estava bem, se havia melhorado ou saído da UTI.
O tom era de brincadeira, mas o questionamento refletia a preocupação dos estudantes de Vitória de Santo Antão com o principal rio da cidade, o Tapacurá. A mudança, na verdade, não aconteceu de modo repentino. Pelo contrário, veio lentamente.
Mas, hoje, conquistou os alunos e são eles os responsáveis pelo monitoramento do “doente”. Semanalmente, um grupo coleta amostras do manancial e analisa o estado de conservação. Ou, no caso, de poluição.

Os resultados servem como base para cobranças e iniciativas de proteção, além de deixar registrada a urgência de atendimento ao “paciente”.
As ações dos estudantes fazem parte do projeto Reflorestágua, desenvolvido pela Sociedade Nordestina de Ecologia (SNE), também em outros cinco municípios de Pernambuco. A intenção dos idealizadores é formar uma rede de proteção pela bacia hidrográfica do Rio Tapacurá. O projeto (patrocinado pela Petrobras) foi lançado em 2005 e já envolveu 1.447 crianças nessas cidades.

Meninos e meninas como os de Vitória, que foram estimulados a despertar para um novo olhar sobre o rio, que corta o centro da cidade, localizada na Zona da Mata do Estado. Uinieli Melo, 14 anos, conta que passa todos os dias por uma ponte que cobre o manancial. “Eu passava todo dia por ele, mas nem ligava. Não sabia a importância do rio para nós e não queria saber como ele estava”, admite, em meio a sorrisos envergonhados. A descoberta do estado de conservação foi feita em grupo e surpreendeu os estudantes.
Com a ajuda de um monitor local, Hericlys Lopes, 14, Gabriela Gomes, 14, Danilo Oliveira, 16, e Uiniele fazem o monitoramento do rio. “Descobrimos que água está sempre poluída, com pouco oxigênio e muitos resíduos de poluição, como agrotóxico. O rio recebe lixo em todo percurso e sempre fica mais poluído quando passa pelas cidades”, pontua Hericlys.

Sempre que chegam da coleta, os alunos dividem os resultados do que encontraram com outros colegas e, desse hábito, surgiu o costume de perguntar “se o rio saiu da UTI”. A gerente executiva do projeto, Maíra Braga, destaca a mudança de comportamento das crianças e adolescentes. “A gente observa como eles passaram a se preocupar e perguntar sempre pelo estado do rio”, diz.

Ocorrências - Segundo Maíra, a preservação da bacia é relevante também para a Região Metropolitana do Recife, onde 1 milhão de habitantes são beneficiados pelo abastecimento proveniente do rio. Municípios que também têm papel na poluição do manancial, que apresenta como principais fontes poluidoras os esgotos domésticos, os matadouros e as casas de farinha.
“Ainda conseguimos sensibilizar outros segmentos da sociedade que se reuniram e criaram o Fórum da Bacia Hidrográfica do Rio Tapacurá. Com isso, eles conseguiram pressionar o município a fechar um matadouro que despejava seus resíduos no manancial”, conta Maíra.

Na opinião de Hericlys, os vizinhos começaram a se preocupar com o rio depois da última enchente ocorrida na cidade, quando a falta de vegetação na margem e os aterramentos contribuíram com a ocorrência de alagamentos e deslizamentos.

Em Vitória, o Reflorestágua atua em cinco escolas, totalizando 25 unidades de ensino nos municípios de atuação (São Lourenço da Mata, Moreno, Pombos, Gravatá e Chã Grande).

A professora da Escola Madre Lucila Magalhães Cecília Tavares destaca que já desenvolvia atividades de educação ambiental, mas ressalta que o projeto permitiu o conhecimento da realidade vizinha. “Os problemas são semelhantes, mas é interessante ver como cada um dos municípios está trabalhando”, diz. Além do monitoramento participativo da qualidade da água, a iniciativa inclui outras ações de educação ambiental e mobilização social, como reflorestamento participativo.
(Diário de Pernambuco).

Saiba mais

VITÓRIA DE SANTO ANTÃO

- Localizada a 53 quilômetros do Recife, na Zona da Mata –
Abriga uma população de 121 mil habitantes – Possui uma área de 368 km2

CONHEÇA O RIO TAPACURÁ

É o principal afluente do Rio Capibaribe
A bacia do Tapacurá abrange seis municípios: Vitória de Santo Antão, Pombos, São Lourenço da Mata, Gravatá, Moreno e Chã Grande
A população residente soma 366 mil habitantes, representando 4,63% da população do Estado
Também conta com 12 microbacias, sendo as principais dos riachos Itapessirica, Natuba, Gameleira e Várzea do Una
A nascente do rio fica em Gravatá e a qualidade da água é considerada boa no trecho superior, piorando acentuadamente ao passar por Pombos e Vitória de Santo Antão
O manancial passa por uma gradativa recuperação no trecho inferior, voltando a receber poluentes ao se aproximar do Rio Capibaribe
As principais fontes poluidoras são os esgotos domésticos, os matadouros e as casas de farinha
Fonte: IBGE, Projeto Reflorestágua