Ceclin
mar 04, 2012 1 Comentário


Um olhar para as guerreiras das Tabocas

EM VITÓRIA Cientista jogadora americana analisa as dificuldades do futebol feminino no Brasil

Hildo Neto, Jornal do Commercio

Num dia chuvoso, aos poucos, as jogadoras vão chegando, de bicicleta, moto, ônibus e até a pé. Mesmo sem o número mínimo de atletas, o treinamento começa num campo de areia e sem a iluminação adequada, bastante distante dos holofotes e do glamour destinados aos grandes times masculinos. Essa é a realidade da maioria das equipes femininas de futebol no Brasil. As atletas parecem que são invisíveis para o grande público. Ao contrário do vôlei, basquete, tênis e tantos outros esportes, em que os gêneros dividem os olhares quase da mesma forma, o futebol feminino ainda não engrenou no gosto popular e da mídia.

Apesar da leve valorização, as mulheres ainda jogam longe das câmeras, do público e em estádios precários. A falta de retorno financeiro afugenta os grandes clubes do futebol feminino. Considerada a melhor equipe da América do Sul, o Santos acabou com as “Sereias da Vila” alegando falta de dinheiro. Com este cenário, a norte-americana Caitlin Fisher, de 29 anos, graduada em antropologia pela Universidade de Harvard e mestre em Desenvolvimento, Gênero e Globalização pela London School of Economics and Political Science, desenvolve o projeto acadêmico multimídia “Guerreiras”.

“A gente está tentando aumentar as vozes das jogadores, que até hoje são invisíveis. Criamos um espaço para que elas sejam ouvidas e, principalmente, compartilhem as experiências dentro e fora de campo. O futebol não é só um esporte, dá aula para a vida”, comenta Fisher, que joga no Acadêmica Vitória, no interior de Pernambuco. Antes de chegar a Vitória de Santo Antão, ela já jogou nos Estados Unidos e na Suécia. O projeto explora a forma como as jogadores lidam com o preconceito, a falta de apoio e a pouca valorização do futebol feminino no Brasil.

“Será que a gente tem de fazer um calendário peladas para vender o futebol feminino? A gente sempre fala do esporte no contexto do masculino. Não dá para comparar. Temos de mudar esse paradigma”, afirma. Um dos objetivos do “Guerreiras Project” é abrir a cabeça das pessoas para que elas interpretem o futebol feminino de uma outra forma. “O nosso futebol é parecido com o da época de Pelé, só que mais lento e com menos explosão. É preciso enxergar com outros olhos”, analisa.

O projeto foi lançado em 2011, na Copa do Mundo feminina da Alemanha. Depois foi apresentado em Londres, Trinidad e Tobago e Gana. No Brasil, está sendo financiado por uma entidade sem fins lucrativos até junho. Em Vitória de Santo Antão, Fisher conta com o apoio da também americana Adrienne Grunwald, que faz os registros multimídia do estudo.

Brasileiras têm ginga. Falta apoio

Com a experiência de quem estuda o futebol feminino brasileiro e já viajou por várias partes do mundo, a cientista jogadora Caitlin Fisher é categórica em afirma que não vai demorar muito para o Brasil conquistar uma Copa do Mundo e uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Na opinião dela, as brasileiras têm habilidade e ginga superior às atletas de outros países.

“Quando as meninas daqui tiverem mais apoio, com certeza vão ganhar uma Copa do Mundo e se estabilizar, porque elas têm qualidade, só precisam de alguém que acredite nelas”, afirma. Fisher garante que a situação do futebol feminino no Brasil melhorou desde que jogou aqui pela primeira vez em 2004, mas que ainda há muito a evoluir. “Na época que eu estava no Santos, nós já chegamos a treinar na rua, com os carros passando, porque não tinha lugar. A Marta abriu muitas portas e hoje as equipes estão mais fortes”, analisa.

Uma das alternativas apontadas por Fisher para o fortalecimento do futebol feminino é que ex-jogadoras ocupem cargos nos clubes, federações e órgãos governamentais. “Elas conhecem a realidade e tem experiência para contribuir com o esporte. Tem atletas que jogaram comigo que hoje são motoristas e trabalham em indústrias”, afirma.

Apesar do otimismo, a meio-campista analisa com cautela a atual conjuntura do futebol feminino. “Foi uma surpresa para todo mundo o fim da Liga Americana e do Santos. É uma desmotivação para o esporte feminino, não só para o futebol. Porém, o Brasil tem potencial para superar isso e crescer”, finaliza Fisher.

CONCURSO

O projeto Guerreiras está participando de uma eleição em que são escolhidas as 50 iniciativas ao redor do mundo que mais contribuem para a igualdade de gênero e a valorização das mulheres. O resultado será anunciado no Dia Internacional da Mulher, no próximo 8 de março.

Como é um projeto multimídia, o Guerreiras tem um blog para difundir o estudo – http://guerreirasproject.wordpress.com.

Jogadoras querem atividade o ano todo

A falta de um calendário permanente do futebol feminino está dando dor de cabeça para as jogadores e dirigentes. Com a antecipação da Copa do Brasil para o primeiro semestre, os clubes ainda não sabem o que farão na segunda metade do ano, correndo o risco de alguns paralisarem as atividades e só retornarem em 2013. A ausência de uma competição que dure o ano inteiro é uma das principais carência da modalidade.

“A gente vai procurar alternativas para não parar. Quem sabe realizar uma Copa do Nordeste. Esperamos que a CBF também aponte uma alternativa para o futebol feminino não degringolar”, comenta o presidente do Vitória, Paulo Roberto Arruda. Caso o Tricolor das Tabocas chegue novamente à final da Copa do Brasil, o último jogo oficial será no dia 9 de junho.

A única competição oficial no segundo semestre é a Copa Libertadores e o representante do Brasil já está definido. Será o Foz Cataratas-PR, que foi o campeão da Copa do Brasil no ano passado. No entanto, como Pernambuco é candidato a receber a competição continental, o Tricolor das Tabocas pode ser indicado como representante do País. A Conmebol deve divulgar até julho onde será realizada a competição, que no ano passado ocorreu em São José dos Campos.

Na candidatura de Pernambuco, as cidades-sedes seriam Recife, Vitória de Santo Antão e Caruaru. O que pesa contra o Estado é o fato das três edições da Libertadores terem sido disputadas no Brasil. No entanto, a Federação Pernambucana de Futebol e o Vitória estão otimistas quanto a realização do torneio.

Apesar de apontar algumas alternativas como amistosos e jogos universitários será difícil para o Vitória manter as jogadoras no segundo semestre sem uma competição oficial. Com um alto investimento, que apesar de não ser oficial deve girar em torno de R$ 500 mil por ano, o Tricolor das Tabocas terá de se virar para não fechar a equipe.

O Vitória mantém 32 jogadoras com apartamentos, transporte e alimentação, além do salário e da comissão técnica.