Ceclin
jun 16, 2011 0 Comentário


Segue impasse sobre fusão da Perdigão e Sadia


A BRF Brasil Foods, empresa resultante da fusão entre Sadia e Perdigão, perdeu R$ 2,26 bilhões em valor de mercado após o início do julgamento da união no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

O relator do processo, o conselheiro Carlos Ragazzo, reprovou a operação anteontem, apontando risco de aumento de preço dos produtos vendidos pelas empresas. O julgamento foi interrompido após o conselheiro Ricardo Ruiz pedir vista e deve ser retomado na próxima quarta-feira. Ruiz indicou que deve seguir o relator em seu voto. Cinco conselheiros decidirão o futuro da BRF.

A notícia caiu como uma bomba no mercado financeiro. Apesar de esperar imposições do Cade à fusão, a maioria dos analistas não considerava a possibilidade de o conselho exigir a dissolução da empresa, formada em maio de 2009. Em dois dias, as ações caíram 9,3% – considerando as cotações de fechamento de terça-feira, véspera do julgamento, e quinta-feira. O papel terminou o pregão a R$ 25,31, queda de 3,21%, mas chegou a perder 6,9% durante o dia. Desde terça-feira, o valor de mercado da BRF caiu de R$ 24,32 bilhões para R$ 22,06 bilhões, uma diferença de R$ 2,26 bilhões.

“Ninguém esperava uma posição tão dura, e o comportamento das ações comprova isso”, afirmou Renato Prado, analista do setor de alimentos da Fator Corretora.

“Para o mercado, o pior dos cenários seria a obrigatoriedade de venda de uma das marcas líderes, Sadia ou Perdigão. Do jeito que o Cade está propondo, nem sinergias no mercado externo seriam mais atingidas”, disse Gabriel Lima, analista do banco Santander.

O parecer de Ragazzo foi tão duro que levou analistas a começar a incorporar, em seus modelos de análise, a possibilidade de o negócio ser desfeito. Alguns bancos reduziram a recomendação e o preço-alvo para as ações. Diversos cenários estão sendo formados: quanto a BRF (antiga Perdigão) valeria sem a Sadia, no caso da venda de uma das marcas e de o impasse entre o Cade e a empresa permanecer.

Por enquanto, a incerteza continua. “Estamos recomendando ficar de fora do papel enquanto não conhecermos a decisão final do Cade”, disse o analista Cauê Pinheiro, da SLW Corretora.

As incertezas também criam novos cenários para as empresas concorrentes. De um lado, os competidores veem grandes chances de o negócio ser desfeito ou se arrastar por anos na Justiça, como no caso Nestlé-Garoto, enfraquecendo as marcas. De outro, vários desses concorrentes fazem fila esperando abocanhar uma parte dos negócios ou mesmo toda a Sadia.

A lista de candidatos é grande e pode incluir empresas nacionais, como JBS e Marfrig, mas a americana Tyson Foods lançou-se na frente. Gigante com vendas anuais de US$ 28 bilhões, a Tyson informou oficialmente ao Cade que tem interesse em comprar ativos da Brasil Foods que eventualmente tenham que ser vendidos por determinação do conselho.

“Não só a Tyson como uma centena de outras empresas tem muito interesse na Sadia”, avalia o consultor Osler Desouzart, ex-diretor de comércio exterior da Sadia e da Perdigão.

O voto lido quarta-feira pelo relator do processo no Cade, Carlos Ragazzo, é pela determinação para que a Perdigão desfaça a fusão ou venda suas ações na Sadia. Na época da operação, em 2009, a Sadia estava praticamente quebrada após prejuízos bilionários com derivativos cambiais.

No caso mais recente de rejeição a um negócio, o Cade determinou que a Owens Corning vendesse uma fábrica de fibra de vidro adquirida da Saint-Gobain. Esgotado o prazo dado pelo conselho para a venda, o Cade nomeou um interventor que coordenou a venda da fábrica à revelia das empresas. Esse desfecho é possível para o caso da Brasil Foods, fruto da fusão entre Sadia e Perdigão, segundo uma advogada especialista na área.

A Tyson e a Marfrig foram as duas companhias que mais se pronunciaram junto ao Cade no processo da fusão entre Perdigão e Sadia. Cada uma enviou sete petições não confidenciais ao conselho, sendo cinco em resposta a questionamentos do próprio Cade e duas vezes por iniciativa própria. Foi em um desses documentos que a Tyson afirmou estar interessada em ativos da Brasil Foods.

As informações são da Folha Online e do Brasil Econômico, resumidas e adaptadas pela Equipe AgriPoint.