Ceclin
jun 14, 2009 6 Comentários


Quem é otário

Por Joca Souza Leão


Um cara com cara de menino e mandato de deputado tirou o maior sarro da cara de Ricardo Teixeira, da CBF, e Joseph Blatter, da Fifa. O cara foi pra televisão dizer que era graças a ele que Pernambuco estava entre as subsedes da Copa de 2014.

Ricardo Teixeira e Joseph Blatter fizeram a maior quizumba para escolher as 12 subsedes da Copa. Visitaram os 17 Estados que se autoproclamaram candidatos e foram recebidos como reis, com todas as honras e galhardias. Puxa-saquismo cinco estrelas.

Os estados gastaram uma grana preta. Deslocamentos, obviamente, por helicóptero, que ninguém era doido de correr risco. Já pensou, os ilustres visitantes presos num engarrafamento? E se, pra completar, fossem assaltados? Todo mundo sabe que Joseph Blatter é suíço, não ia usar relógio japonês, né?: “E aí, gringo, passa o Rolex.”.

As exigências da Fifa eram grandes. Para algumas cidades, como o Recife, coitada, não eram grandes, não, eram enormes. Nem estádio a gente tinha pra mostrar. Tivemos que investir num projeto e jurar de pés juntos que tínhamos dinheiro – temos? – pra construir. O aeroporto, que foi construído outro dia, já não dá conta do recado, tem que ser ampliado. E o que dizer de novos hotéis, iluminação pública, acessos rodoviários, malha viária e transporte público, incluindo metrô?

Saneamento contava ponto? Não sei. Mas se contava, os gringos não devem ter ficado sabendo que o Recife tá boiando no cocô. Literalmente, não é metáfora, não. E limpeza urbana? Escapamos por um triz, se os caras tivessem baixado por aqui há três semanas, quando a prefeitura tava brigando com a empresa responsável pela coleta, a desgraça tava feita. Adeus, Copa. O que dizer dos alagamentos no inverno? E não esqueçam que a época da Copa, junho/julho, é época da dengue tá solta na buraqueira. Olha só que manchete arretada: Brasil derruba Argentina. De dengue.

E segurança? O que será que disseram aos caras? “Tolerância zero”, imagino. Tudo bem, vai ver que conseguem. Durante a competição, zero de assalto, assassinato, sequestro e por aí afora. Depois já sabe, né? Volta tudo à tragédia de sempre. Carnificina geral.
Teixeira e Blatter fizeram o maior segredo das cidades escolhidas. Segredo de polichinelo. Mas fizeram. Marcaram a proclamação dos nomes para o domingo 31 de maio em Nassau, nas Bahamas, com transmissão via satélite pra todo o planeta.

Mas, pelo menos aqui no Recife, o cara com cara de menino e mandato de deputado cortou o barato deles. Uma semana antes, ocupou o espaço gratuito da Justiça Eleitoral (pode?) na televisão, pra botar a boca no trombone. O que ele disse, com outras palavras, foi que o Recife foi escolhido graças à amizade dele com Ricardo Teixeira. Mas que ele, humildemente, não considerava aquilo uma conquista pessoal, mas de todo o povo pernambucano, que ele aproveitava para parabenizar: “Podem contar comigo”. Dá pra tu, jaburu?

Quer dizer, a ser verdade o que diz o cara com cara de menino e mandato de deputado, o presidente da CBF deve uma, não, deve cinco explicações, bem explicadinhas, às cinco cidades que investiram, acreditaram na isenção do processo de escolha e foram excluídas. Se não for verdade o que disse o cara com cara de menino e mandato de deputado, aí Ricardo Teixeira deve, além de dar explicações, passar um carão no menino.

Mas esse negócio tá mesmo é com pinta do seguinte: o cara com cara de menino e mandato de deputado teve apenas a informação privilegiada e deu com a língua nos dentes, imaginando que nós, os otários, iríamos acreditar que graças a ele é que Pernambuco seria subsede da Copa. E assim, na próxima eleição, “todos vão votar em mim”.
Sabe quando a gente vai ficar sabendo quem é o otário dessa história? Em outubro do ano que vem, nas próximas eleições.

Em tempo: todas as vezes – e não são poucas – em que a Justiça condena a Celpe a reduzir os aumentos abusivos no preço de energia, o cara com cara de menino e mandato de deputado manda fazer um outdoor com a foto dele: “Olha aí, gente, fui eu que consegui, na eleição, vote em mim.”

por Joca Souza Leão,
é publicitário e cronista.