• Ceclin
out 23, 2008 13 Comentários


Polarização despolitizada

Nossa Coluna quinzenal no site Direto do Ponto.com
por Lissandro Nascimento*
Não sei pelo resto dos municípios afora, mas cá na província o debate eleitoral passou ao largo das questões mais gerais. Cabe assinalar que mais parecia uma disputa para síndico.

Por que tanta estranheza? Pelo fato de que em Vitória de Santo Antão a tradição é de embates eleitorais altamente disputados, nos quais os problemas locais sempre são debatidos na tentativa de envolver a população. Em 2000 e 2004 foi assim.

Em 2000, Elias Lira como candidato a prefeito se apoiou no discurso de corrigir a gestão anterior (Breckenfeld), ainda na defesa de um governo a altura de uma cidade pólo como é Vitória. Já o então José Aglaílson explorando os vínculos de sua tradição familiar e a de que queria fazer um governo popular diferente de Elias correu por fora e levou a eleição. Tentando entrar neste debate corria pela frente de centro- esquerda o Antonio de Lemos que ficou em terceiro na disputa e fez a diferença abrindo campo para o primeiro governo de Aglaílson. Pautou-se, assim, o confronto de idéias.

Em 2004 o esquema se repetiu. Agora em um modelo nominado de plebiscito: qual tipo de governo a cidade gostaria de ter? Se um governo que se mostrava dinâmico com Aglaílson, contudo, cheio de equívocos; ou no governo de Elias com experiência reconhecida e se cacifando como o anti-Aglaílson. A polarização conseqüente consolidou-se, novamente os campos estiveram definidos com nitidez.

No pleito recém-encerrado (2008), ao contrário, nada mais houve que a exaltação, por parte da Frente de Dedé (PSB) com a candidatura cacifada pelo Aglaílson. Os oposicionistas Elias Lira (DEM) com Henrique Queiroz (PR) fugiram como diabo foge da cruz da crítica ao governo Lula, pressionados pela popularidade do presidente; e acertaram na estratégia de pautar a eleição no “mote administrativo”, buscando confrontar com o governo de Aglailson o quanto estes poderiam ser melhor. O grupo de Aglaílson que poderia valorizar o embate ideológico trazido com Lula e Eduardo e confrontar também com o debate administrativo, acabou usando a estratégia de resumir a eleição tão somente na força e na figura de Aglailson.
A Frente de Dedé acabou se vinculando a Lula e Eduardo faltando quinze dias para as eleições, ou seja, explorou tarde. Preferiu empobrecer o debate, com artifícios “baixos”, ao invés de ir para o confronto de idéias com a coligação de Elias.
A polarização 2008 deixou de lado o embate político, valorizou o personalismo, e a cidade se dividiu por uma diferença de 232 votos. Como a estratégia principal do PSB era valorizar “a força” de Aglaílson, o Elias Lira conseguiu atrair grande parte do eleitorado que não queria ver o “Zé do Povo” com um terceiro mandato.

Tudo bem que a disputa foi direcionada para a polarização. É bom frisar da polarização de cores: amarelo e vermelho. Que lástima!
Sendo que a verdadeira polarização não ficou nítida para a população. A estratégia do debate administrativo e ideológico capitaneados pelo êxito do Governo Lula e a popularidade do governo Eduardo Campos não foi usada devidamente. No final as pessoas não viam muita diferença entre o que Elias Lira representava e o que o Dedé defendia. O eleitorado observou o viés administrativo puxado por Elias Lira e Henrique Filho, enquanto do outro lado havia Dedé e Bione marcado por oito anos de um governo “confuso e personificado no Zé do Povo”. Dentre, é claro, devido outros fatores, este elemento foi suficiente para vencer por 232 votos.

Porém há um prejuízo nisso. A campanha deve servir para esclarecer a população acerca dos problemas cruciais que a atinge. E isto não se dá reduzindo o debate apenas à problemática local e personalismos.
Mormente neste instante em que se inicia, em Pernambuco, um novo ciclo de crescimento econômico determinado em boa parte por decisões políticas nacionais, como a localização no Complexo Portuário de Suape de importantes empreendimentos industriais de ponta, a exemplo da Sadia, com grandes repercussões sobre a vida em Vitória de Santo Antão e no ambiente da Mata Sul pernambucana.


*Lissandro Nascimento,
Turismólogo, Professor e Editor do Blog A Voz da Vitória. Presidente local do PCdoB.