• Ceclin
set 19, 2008 3 Comentários


Perversão social

Publicado em 19.09.2008
Cristovam Buarque

Pedofilia é uma perversão de indivíduos, espalhados por países, pedofobia é perversão social, concentrada em países como o Brasil. A pedofilia é, na verdade, uma forma de pedofobia, de desamor, de aversão às crianças. Mas não é a única.
A tolerância com a exploração sexual de crianças e adolescentes é uma forma social de pedofobia. Mas é aceita há décadas, como se fosse menos grave prostituir uma criança ou adolescente do que utilizá-la nas práticas da pedofilia.
Abandonar crianças nas ruas também é uma forma de pedofobia. E no Brasil, essa prática é aceita com normalidade. Como se fosse uma coisa normal deixar milhões de meninos e meninas sujeitos à brutalidade do abandono. Os pais abandonam suas crianças por impossibilidade de mantê-las, mas os governos que não criam mecanismos para protegê-las são pedófobos. Amam a economia e as obras, mas não as crianças. Também são pedófobos aqueles que, ao longo da história democrática, elegem e toleram governantes mais pelas obras do que pelo cuidado com as crianças.
Deixar crianças sem brinquedos, condenadas ao trabalho, assassinadas, espancadas, esquecidas, quando deveriam brincar são formas de pedofobia com as quais a sociedade convive sem se horrorizar.
Condenar crianças a um futuro excluído das vantagens da sociedade, cortar seus talentos por falta de escolas ou de escolaridade completa e de qualidade, também é pedofobia. Não pagar bem aos professores e em troca tolerar que eles não se preparem, não se dediquem, façam greves deixando as crianças perderem um tempo irrecuperável, é uma forma de pedofobia que a sociedade brasileira comete, por ação de alguns e omissão de muitos. Nós todos praticamos essa pedofobia quando sabemos que a cada minuto 60 crianças abandonam a escola, e as que ficam até o final do ensino médio recebem uma formação pobre. Perguntar quanto custa mudar essa realidade, aceitando que haja dinheiro para todo o resto, menos para as crianças e suas escolas, é uma forma de pedofobia bastante disseminada na sociedade brasileira. A mesma sociedade que se horroriza com a maldade da pedofilia.
Cercar as escolas boas, deixando milhões de estudantes do lado de fora, cercar os hospitais de qualidade, deixando crianças doentes no lado de fora, cercar os supermercados, deixando de fora crianças com fome, são práticas pedófobas que muitos de nós nem sequer percebemos.
O pedófilo rouba o futuro de crianças marcando-as para sempre com a violência sexual. Mas os pedófobos também roubam esse futuro, quando deixam as crianças condenadas pelo analfabetismo e pela falta de escola, marcando-as definitivamente.
A violência da omissão e da tolerância contra os crimes cometidos contra as crianças é um comportamento pedófobo. E ficamos aliviados quando alguns pedófilos são presos. A culpa nos monstros da pedofilia não deve esconder a responsabilidade dos pedófobos por omissão, escolhendo dirigentes sem sensibilidade, com espírito pedófobo, que encontram dinheiro para tudo, menos para fazer o que propunha a senadora Heloisa Helena: “adotar uma geração de pequenos brasileiros, dando-lhe tudo de que eles precisam”. Pois se o fizermos, o resto eles farão quando adultos, sem os traumas deixados por pedófilos ou pedófobos que, por meios diferentes, provocam os mesmos resultados: crianças dilaceradas, adultos angustiados.
A pedofilia é uma perversão brutal que ocorre em muitos países do mundo. Mas tristemente temos de reconhecer que raros países apresentam o grau de pedofobia que se percebe no Brasil.

» Cristovam Buarque,
é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF.