Ceclin
abr 08, 2013 1 Comentário


Para eles não existe seca

Vitória de Santo Antão, Água Preta, Ribeirão, Rio Formoso, e Tamandaré são as cidades com maior rebanho na Mata Sul

Jornal do Commercio

Antes de cruzar a porteira que separa a estrada do pasto, Heretiano Colaço apanha no chão um pouco de palha seca de cana-de-açúcar. Atira o que ninguém diria ser alimento para alguns dos seus 800 búfalos. Eles não se fazem de rogados. Comem tudo. Água Preta, Mata Sul do Estado, local onde Colaço cria seus animais, está a cerca de 200 quilômetros do Agreste agredido pela falta de água. Onde ossadas de bois e vacas fazem parte da paisagem. Como se desconhecessem estiagem, os búfalos seguem grandes e gordos em Pernambuco. Além de resistentes, fornecem um leite com o dobro da produtividade daquele de origem bovina. E cujos produtos finais são nobres.

A mussarela sai do laticínio por R$ 28 o quilo, por exemplo. Todas essas aptidões sustentam a defesa dos criadores de que os búfalos são opção viável de renovação da pecuária leiteira no Estado, combalida pela seca. O sistema digestivo dos búfalos é muito eficiente, capaz de arrancar nutrientes de alimentos pobres. “Se colocar no Sertão, sob as mesmas condições, bovinos e bubalinos, só depois que o último boi morrer é que os búfalos começam a se entregar.  É um animal inteligente, pois inteligência é adaptação”, resume Alberto Couto, criador, mestre em zootecnia e proprietário da Búfalo Bill e de 500 cabeças, em Alagoas.

Em Pernambuco, a queda no rebanho bubalino entre 2012 e este ano foi pequena, em torno de 10% ou menos 1.160 cabeças. E não tem ligação com a seca. É fruto do abate de animais velhos ou venda dos mais novos para fora. Não que a estiagem não tenha trazido problemas. Colaço relata que a cana usada como alimento saltou de preço, de R$ 30 a tonelada para R$ 60. O pasto secou e os açudes, riachos, filetes de rio e outras áreas alagadas ou sumiram ou ficaram estreitas.São nelas que, quando o sol castiga, os búfalos se espremem. “Eles precisam de água, lama ou sombra, pois suam pouco e a pele ressequida incomoda.” Ainda assim, das 5h às 13h, todos os dias, as suas búfalas são levadas para ordenha e o laticínio processa 12 mil quilos de queijo mensais. Além da resistência, o búfalo possui uma capacidade de reprodução muito boa.

As fêmeas têm ainda um período de lactação longo (entre oito e nove meses) e, um mês após o leite acabar, já podem reproduzir novamente. Diferentemente da imagem passada pelos filmes, que costumam retratar o bisão americano, com longo chifres usados em combates entre machos, búfalos são animais extremamente dóceis, especialmente a raça murrah, originária da Índia e mais encontrada em Pernambuco.

Do ponto de vista econômico a grande virtude dos bubalinos está na produtividade do leite para fabricação de queijos. Por ter menos água e mais sais minerais, cálcio, vitaminas e gorduras, é possível fazer um quilo de queijo a partir de 5,2 quilos de leite. Enquanto que nos bovinos é necessário o dobro – 10 quilos de leite. A mussarela é o produto topo de linha, mas é possível fabricar coalho, vendido, em média, a R$ 15 o quilo, e ricota. Colaço, criador comercial mais antigo do Estado, com 37 anos de ofício, e proprietário da Bupesa, tem na sua lista de clientes supermercados, hotéis, delicatessens, restaurante, hospital. Vende até para Fernando de Noronha. Apesar de todas essas vantagens, a criação de búfalos nunca recebeu apoio do poder público ou de universidades no Estado.

Colaço e Couto, defensores, entusiastas e teimosos, explicam que o problema é cultural. Como na Zona da Mata há oferta maior de alimentação, a região é apontada como ideal para surgimento de uma nova bacia leiteira. “Só que plantador de cana é difícil de mudar. A criação poderia ser secundária ao plantio, feito nos 20% de terras que não são utilizadas. Iriam fomentar uma atividade mais lucrativa e capaz de gerar emprego de maior qualificação e renda”, argumenta Colaço.