• Ceclin
jan 15, 2019 0 Comentário


Oposição consequente e propositiva: os desafios das forças democráticas e populares frente à extrema direita no Brasil, por Edson Tenório

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Por Edson Tenório 

O resultado das Eleições de 2018 descortinou aspectos sombrios da civilização e da ainda incipiente democracia brasileira. A vitória da extrema direita, sustentada pelo discurso do “combate à corrupção”, por aspectos morais e pela negação da política, representa por um lado um sentimento de mudança e por outro uma histeria coletiva disseminada pela incitação ao ódio e pela velha tática do inimigo ideológico a ser combatido.

Obviamente, esses dois aspectos por si só não são suficientes para explicar o resultado eleitoral. Porém, são cruciais para entender determinadas nuances da crise político-institucional em que o País mergulhou logo após as eleições de 2014 e os seus desdobramentos ainda em curso.

Desde a primeira eleição geral após a redemocratização, excetuando o breve período dos governos Collor-Itamar, as decisões políticas tiveram como principais expoentes representantes do PSDB e do PT. Ou seja, por exatos vinte anos (1994-2014) duas vertentes da social democracia (centro-direita e centro-esquerda) polarizaram os debates sobre os rumos da nação e, consequentemente, as eleições presidenciais.

A polarização PT vs. PSDB funcionou como catalizadora de duas visões de mundo que embora se apresentassem opostas eram dialeticamente complementares. O discurso da “modernização” do Estado em nenhuma das duas vertentes previa um rompimento radical com velhas práticas políticas ou com determinados privilégios corporativistas. A governabilidade e a manutenção do poder sempre pareceram justificativas plausíveis para concessões nem sempre republicanas.

De qualquer modo, essas duas vertentes conseguiram conviver democraticamente, assumindo as posições de governo e oposição ao longo desses vinte anos. Nesse período, construíram bases sociais que dialogavam através dos embates entre governo e oposição. Nas relações sociais mais amplas estavam inseridos nos sindicatos patronais e de trabalhadores, na grande imprensa e nas mídias alternativas, etc. Mas estavam principalmente inseridos nos diversos setores do Estado: Poder Judiciário, Ministério Público, executivos e legislativos municipais e estaduais, etc.

Em 2104, essa polarização levou a um processo de radicalização. O candidato do PSDB, derrotado nas urnas, questionou o resultado e o que veio a seguir todos já sabem: uma ruptura com o Estado Democrático de Direito. No entanto, não se rompe com o Estado Democrático de Direito sem consequências imprevisíveis. O PSDB, inconformado com quatro derrotas eleitorais seguidas, flertou com o fascismo e acabou se tornando o principal derrotado das eleições em 2018.

Esse processo de ruptura, a campanha ostensiva de negação da política, a desconstrução cotidiana das esquerdas, do PT e da sua principal liderança – hoje o preso político mais conhecido do mundo – gerou uma vacância política que pode levar anos para ser preenchida novamente. Mais do que isso, criou um terreno fértil para um discurso de ódio e o crescimento de uma base social moralista-conservadora. Parte desse processo, inclusive, pode ser explicado pelo crescimento das religiões evangélicas (sobretudo as correntes neopentecostais), a sua ação militante e o seu projeto de poder.

Não cabe aqui, obviamente, procurar culpados ou determinar que a vitória da extrema direita é resultante passiva da ação ou falta de ação da esquerda. Esse tipo de pensamento, além de ingênuo, corrobora de forma negativa para a ideia de que o fracasso do novo governo é caminho seguro para as esquerdas assumirem novamente o poder central no Brasil, o que, diga-se de passagem, não existe nenhuma relação imediata de causa e efeito. Por isso, antes de mais nada, é importante reconhecer que a estratégia do candidato da extrema direita – embora nada republicana ou democrática, carregando anos de involução civilizacional e extremamente desleal – acabou se mostrando a mais eficaz para vencer esse processo eleitoral atípico.

Dito isto, cabe então começar a refletir as estratégias necessárias para se construir uma oposição consequente, propositiva e que consiga ao longo do governo minimizar ao máximo as consequências de um projeto tão nefasto para a maioria do povo brasileiro.

O primeiro passo dessa estratégia é sem dúvida o mais difícil: desmontar os palanques. Esse embate bolsomínions vs. petralhas como foi outrora o embate coxinhas vs. mortadelas só serve para esvaziar o debate político e coloca uma cortina de fumaça sobre os temas realmente relevantes. Nesse campo, a estratégia da extrema direita foi cirúrgica e serviu para deixar expostas feridas que ainda vão levar muito tempo para cicatrizar. Porém, faz-se necessário um esforço de reflexão e diálogo para que se possa entender determinadas angustias presentes nas relações sociais e criar pontes para construir soluções coletivas. Não se combate a intolerância sendo intolerante e não se combate radicalismos sem o exercício constante do diálogo.

O segundo passo é a criação de uma frente ampla capaz de aglutinar os diversos setores democrático-progressistas. Durante o processo eleitoral, infelizmente, a incompreensão de determinados setores e os interesses imediatos de determinadas correntes políticas não permitiram a criação dessa frente. Porém, às vésperas do segundo turno, a mobilização espontânea dos eleitores e as declarações públicas de diversas personalidades em defesa da democracia apontam esse caminho como o mais viável para se retomar a normalidade das instituições democráticas no Brasil. Mas, para que essa frente se concretize é necessário também se distanciar dos hegemonismos e dos sectarismos ideológicos.

Outro passo importante é a retomada dos movimentos sociais classistas. Uma das estratégias de manutenção do poder pela extrema direita será a desarticulação dos movimentos sociais, sobretudo, do movimento sindical. Será necessário que as lideranças se mantenham atentas e vigilantes para não se diminuir ainda mais o equilíbrio na relação capital vs. trabalho. Também será necessário desburocratizar os sindicatos, ampliar as suas bases de representação, dinamizar o diálogo e a democracia interna das entidades para que os trabalhadores se mantenham constantemente mobilizados em defesa dos seus direitos.

Enfim, o novo governo mal começou e as suas contradições internas já nos dá uma dimensão dos desafios que teremos pela frente.

Edson Tenório

 

 

por Edson Tenório,
é Historiador e Mestre em Educação, Colunista do Blog