Ceclin
mar 17, 2009 4 Comentários


O BRASIL E OS EFEITOS DA CRISE GLOBAL

por Otley Farias

A surpreendente resistência da economia brasileira, nitidamente caracterizada em meio à devastação da crise global, apóia-se especialmente na solidez de investimentos bem direcionados.
Com efeito, o que melhor descreve a solidez da economia nacional é precisamente sua independência em relação ao capital estrangeiro especulativo, que em outras épocas se fazia sentir com profundidade durante a vigência das crises econômicas internacionais.

Para atingir o atual estágio, o Brasil teve de fazer seu dever de casa, primeiro quitando (antes do prazo, ressalte-se) sua dívida para com o Fundo Monetário Nacional (FMI), ampliando de forma considerável suas reservas internacionais e se impondo um superávit primário que permite manter estacionário, quando não redutível, o volume de sua dívida externa.
O investimento estrangeiro sadio é feito sobremaneira mediante projetos de expansão das empresas multinacionais que aqui operam, a exemplo da indústria automobilística – o que gera emprego, renda e receita tributária – de modo que o País já não fica à mercê do capital especulativo, aquele que entra no mercado financeiro atraído pela força gravitacional dos juros estratosféricos.
Até a década passada, a fragilidade da economia brasileira residia exatamente na oscilação do capital especulativo. Em momentos de crise internacional, os investidores não hesitavam em resgatar e transferir seus dólares de paises sem tradição de estabilidade, notadamente para os Estados Unidos, a grande matriz da economia internacional. Com o início da crise global, em fins do ano passado, o Brasil, pela primeira vez, resistiu bem ao já esperado movimento dos especuladores. Tanto que, já nesse início de 2009, o Banco Central brasileiro registrou saldo positivo de ingresso de dólares.
É evidente, e não poderia ser de outro modo, que os efeitos da crise se fazem sentir aqui e alhures, mas não com a intensidade projetada pelos mais pessimistas. Há, de fato, uma tendência de revisão dos planos de investimentos na cadeia produtiva, mas o quadro poderia ser bem mais crítico, não estivesse hoje a economia real fundada em bases sólidas, graças ao que a capacidade de compra do consumidor brasileiro – e, portanto, de absorção da produção oriunda do mercado industrial – se mantém em níveis razoáveis, pelo menos quando se leva em conta o potencial devastador da crise.
Não se espere, para o curtíssimo prazo, a entrada de capital estrangeiro, tanto no setor produtivo quanto no mercado financeiro, mas essa é uma contingência absolutamente natural e compreensível. Mais importante, no entanto, é a preservação do atual nível de produção, de forma a assegurar, por um lado, o emprego e a renda de milhões de famílias, e, por outro, evitar que a escassez acabe por pressionar os preços para cima, fazendo ressurgir o fantasma da inflação. (Registre-se, a propósito, que o desenvolvimento brasileiro passou décadas na estagnação, em face de um processo inflacionário crônico, em que, de modo recorrente, a poupança nacional era desviada do setor produtivo para o mercado financeiro, e cuja “ciranda” acabou derrotada pelo Plano Real).
Nesse sentido, seria de certa maneira ingenuidade esperar uma retomada dos investimentos estrangeiros no País, enquanto lá fora o mundo pega fogo. O mais sensato, claro, é apostar na disposição do governo de fazer a sua parte, empregando altas somas de recursos em projetos de infra-estrutura, sobretudo através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com o que será possível minimizar os efeitos deletérios do desemprego em grande escala.
A crise, se por um lado trouxe como conseqüência a interrupção do ritmo do crescimento nacional (pior, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – acaba de revelar uma queda do Produto Interno Bruto da ordem de 3,6% no último quadrimestre de 2008), por outro lado obrigou a autoridade monetária nacional a reduzir a Selic, o que poderá, nos próximos meses, situar o Brasil entre os paises com taxas de juros, digamos, civilizados.
Talvez resida aí, numa política de juros menos austera – e até porque a redução do consumo afasta a risco de um repique inflacionário – a possibilidade de uma retomada dos investimentos, bem antes do que se imagina, considerando que, mesmo em tempos normais, os juros tidos como extorsivos têm funcionado como fator inibidor para o empresariado nacional, com reflexos inevitáveis e gravosos sobre um mercado consumidor cada vez mais refém dos juros diluídos nas compras efetuadas através do crediário sutil e insidioso.
Em síntese, pode-se afirmar que o Brasil, como o resto do planeta, anda às voltas com a crise cujo epicentro situou-se no mercado imobiliário americano, mas, igualmente, em nosso caso, seria injusto e nada realista asseverar que a economia nacional, neste momento, depende dos humores dos mercados financeiros do resto do mundo.

por Otley Farias,
Coordenador dos Cursos ADM/MKT/TUR da Faculdade Osman Lins (FACOL).