Ceclin
Maio 05, 2015 0 Comentário


O Brasil e a resiliência, por Gustavo Krause

Tancredo é eleito no Colégio Eleitoral junto com Sarney. Foto: Agência Estado

Tancredo é eleito no Colégio Eleitoral junto com Sarney. Foto: Agência Estado

por Gustavo Krause

O Brasil não é para principiantes. Tom Jobim, autor da frase, sintetizou a singularidade e a complexidade de uma nação de  dimensões continentais, etnicamente mestiça, culturalmente vária e sincrética, politicamente atrasada, socialmente injusta, economicamente ‘’deitada em berço esplêndido‘’, à espera de um futuro radioso como preconizou Stefan Zweig em Brasil, um país do futuro (1941).

Chico Anysio, com insuperável senso de humor, disse, certa vez. ‘’No Brasil de hoje, os cidadãos têm medo do futuro. Os políticos têm medo do passado”.

No ramo das ciências sociais, não faltam notáveis pensadores e intérpretes do Brasil, desde as obras de Roger Bastide (Brasil, terra de contrastes) ao livro de FHC, pensadores que inventaram o Brasil, em que o autor publica ensaios e estudos sobre 10 pensadores que interpretaram um país já ‘’inventado’’ .

Aliás, Delfim Netto, em recente artigo na Folha de São Paulo, arriscou diagnosticar o País: ‘’esquizofrenia cíclica ‘’, agravada pela maldição dos dez anos que leva a economia a picos e vales, euforia e depressão e, com ela, o sucesso ou fracasso dos partidos encastelados no poder.

De fato, compreender o Brasil é uma tarefa desafiadora. Para simplificar, faz de conta que estamos diante do Sr. Brasil, cidadão sexagenário, padecendo de crises existenciais. Vai a um terapeuta na esperança de entender e conviver melhor com os demônios que azucrinam a vida de 200 milhões de habitantes. Acomodado  no divã, o paciente  deita falação perante a escuta atenta do doutor.

Relata um rosário de fatos, crises e as marcas por elas deixadas. Em agosto de 1954, o tráfico suicídio de Getúlio e sua ressurreição como o ‘’Pai dos pobres’’. O contragolpe de 1955 para garantir a posse do vice Café Filho. O interlúdio juscelinista de democracia e avanços, atropelados pela maluquice de Jânio (1961). Em seguida, um remendo parlamentarista e o retorno plebiscitário ao presidencialismo. Jango tomou posse o que adiou ruptura institucional de 1964. Às dores da ditadura, operou-se longa transição. Impaciente, o povo foi às ruas: Diretas Já!  Frustração! Restavam um colégio eleitoral e a vocação conciliadora de Tancredo. Acendeu uma luz:  Presidente civil. Não. Presidente gravemente enfermo cujo martírio teve encontro histórico com a expiação cívica de Tiradentes. Vinte e um de abril de 1985: traumatismo generalizado. Medo do retrocesso. Sarney, à sua maneira, não governou a economia, mas amansou a política: entregou o governo a Collor, presidente eleito, e o Brasil com nova Constituição.

Agora vai, animou-se o Sr. Brasil. Engano: Confiscou brutal. Restaram 50 moedas da tradição; o concubinado dos anões com o ‘’orçamento Branca de Neve’’; um esquema profissional de corrupção e uma economia em frangalhos. A indignação foi às ruas e fez valer o recurso constitucional do impeachment. Democracia testada e aprovada com louvor: segue o barco no rumo certo. Primeiro com o imprevisível Itamar; depois com FHC, o ‘’ presidente improvável’’, como ele se autodefine.

A calmaria da moeda estável apascentou os espíritos e a rotina democrática abriu novos horizontes. Cinco eleições asseguraram a alternância do poder. O remoto país agroexportador, de feições rurais e pendores autoritários, não somente entrou no seleto clube das dez maiores economias do planeta, como, pelo voto, chegou às mãos de um operário, retirante nordestino, liminarmente, condenado à pobreza absoluta.

Mais que um presidente, Lula e o PT eram os mensageiros da boa nova: a era da ética, prosperidade e inclusão social. De repente, o Sr. Brasil, acometido de pranto convulso e profundamente frustrado diante da tormenta atual, pergunta aos soluços: o que fazer diante da superposição de crises, da corrupção endêmica e enraizada que destrói instituições e alimenta razão cínica do ‘’esperto’’ que fura fila ?

O terapeuta falou. Curto e grosso: os problemas serão vencidos, convicção que espantou o cidadão desesperado. O Sr. Brasil, disse ele, tem uma admirável propriedade, definida pela física, a resiliência, que se aplica às matérias, às pessoas e às nações. Trata-se da capacidade de resistir, enfrentar, superar dificuldades e seguir adiante. É o que acontece, por exemplo, no salto com vara: a vara verga ao máximo, depois, volta ao estado inicial.

Assim é o Brasil no enfrentamento do banco de delinquentes: verga, mas não quebra.

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Gustavo Krause foi Ministro de Estado e é consultor.