Ceclin
dez 26, 2009 2 Comentários


Na trilha da recuperação: as perspectivas para a economia global em 2010


SÃO PAULO Se 2008 foi o ano da crise – a maior desde 1929 -, 2009 poderia muito bem ser considerado o ano da recuperação. Embora muitos países ainda estejam imersos na recessão, não há quem questione a expressiva melhora no ambiente macroeconômico global nos doze últimos meses.

Onde declínios davam o tom dos indicadores, crescimentos já começam a ser reportados; e onde nunca deixaram de ser reportados, começam a se mostrar maiores. É o caso da China, dos EUA, da Europa e até mesmo da economia brasileira.

Há um ano, uma única grande pergunta dominava a mente de analistas, economistas e investidores: quando irá acabar a crise? Hoje, são muitos os questionamentos feitos: quão robusta e sólida será a recuperação? Estará por vir um novo ciclo de aperto monetário? E quanto ao cenário inflacionário?

EUA: a passos lentos, mas sólidos

Para Michael Gavin, economista do Barclays Capital, o otimismo entre investidores é justificável. “A recuperação norte-americana vem a passos lentos, mas sólidos”, afirma em entrevista à InfoMoney. A opinião de Gavin não é exceção, mas sim reflexo de uma visão quase que consensual entre os analistas. “A retomada se mostrará maior do que esperávamos, mas ainda assim, menor que a registrada em crises passadas”, opina, por sua vez, Ethan Harris, economista do Bank of America.

Por que menor que a registrada em crises passadas? Antes de qualquer explicação mais complexa, Harris lembra que esta crise tem dimensões muito mais profundas que as últimas. Assim, não é de se estranhar uma recuperação mais vagarosa. Além disso, para Harris, o mercado imobiliário – o pivô da crise – é conhecido justamente por uma dinâmica menos imediata, que quando afligida, demanda mais tempo para se recuperar.

E por que maior do que o esperado? A resposta está no mercado de trabalho. “O consumo norte-americano corresponde a 71% da economia do país, e ele vem dando sinais de uma recuperação mais rápida do que ditavam nossas projeções, sustentada pela geração de postos de empregos”, afirma a equipe do Credit Suisse, que vai além: “apostamos em uma expansão surpreendente na criação de postos de trabalho na primeira metade de 2010, em resposta à dispensa excessiva de empregados pelas grandes corporações dos EUA nos últimos trimestres”.

Do outro lado do Atlântico

No entanto, muitos são os fatores que impedem o continente de tomar a dianteira na expansão global. “O euro valorizado, a iminência de um aperto monetário pelo Banco Central Europeu e a complicada situação fiscal de alguns países são apenas alguns deles”, comenta Gavin.

O dragão chinês

Gavin compartilha de números um pouco mais cautelosos: crescimento econômico de 9,6% no ano que vem, sobretudo em função de expansões a serem reportadas no consumo doméstico chinês, favorecido por estímulos concedidos pelo governo à população rural do país. “Vejo uma continuidade desta tendência”, afirma o economista do Barclays.

No entanto, tanto a equipe do Credit Suisse quanto Gavin alertam para a possibilidade de pressões inflacionárias na economia chinesa e, consequentemente, apertos monetários por parte da autoridade monetária.

Projeções sobre inflação

Entretanto, o alerta fica mais por conta dos mercados emergentes. Entre as expectativas traçadas por Harris para a economia norte-americana e europeia, deterioração do cenário inflacionário não está entre elas. Pelo contrário, desafiando temores dos investidores, Harris cogita a possibilidade de queda nos preços.

“Mas e os ciclos de flexibilização monetária? Você deve me perguntar. Bem, é importante destacar que não é sempre que cortes nos juros ocasionam inflação. Há um processo de transmissão entre os dois, onde juros baixos geram concessão excessiva de crédito, que estimula o consumo que, por sua vez, gera a alta dos preços. Acontece que, desta vez, este processo está empacado no crédito, já que as instituições financeiras ainda lutam para reconstruírem seus balanços”, explica.

Aperto monetário: quando, onde, quanto?

Em decorrência das expectativas traçadas ao cenário inflacionário, a previsão dos analistas é de que tal fenômeno se manifeste mais cedo nas economias emergentes, entre elas a chinesa. Na Europa, os acréscimos deverão ocorrer um pouco mais tarde, mas ainda assim antes que os EUA, uma vez que o BCE (Banco Central Europeu) tem reconhecidamente uma política mais dura contra a inflação do que o Federal Reserve, que lida com problemas mais sérios no mercado de trabalho.

“A partir de setembro do ano que vem, a Fed Funds Rate deverá sofrer sua primeira elevação, encerrando 2010 ao patamar de 1% ao ano, onde deverá permanecer durante todo o ano de 2011. Este aperto está, portanto, longe de configurar-se como um choque de liquidez e de trazer grandes impactos aos mercados”, opina Gavin.

Quanto à retirada dos programas de estímulos fiscais, tanto na Europa quanto nos EUA, Gavin também ameniza temores disseminados entre investidores. “Sim, os estímulos devem terminar. Mas as instituições financeiras estão bem preparadas para lidar com esta nova fase, que por sinal, foi cuidadosamente anunciada pelas autoridades aos mercados em pequenas doses, justamente para evitar qualquer reação exagerada e infundada”, afirma o economista do Barclays.

Os riscos

Para a equipe de analistas holandeses do Danske Bank, outro grande risco que se põe à recuperação econômica global é a deterioração fiscal de alguns países. Dubai foi o primeiro, embora os problemas pareçam ter sido contornados – ao menos por ora. Mas a situação da Grécia traz maior preocupação à equipe. “Para diminuir seu enorme déficit, o governo terá que realizar cortes severos em seu orçamento, e tal tarefa não é nada fácil em tempos de crise econômica”, afirmam.