Ceclin
mar 31, 2016 0 Comentário


Pesquisa aponta: Mulher vítima de violência do parceiro tem maior chance de agredir filhos

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A dissertação de mestrado “Violência cometida pelo parceiro íntimo contra a mulher e prática educativa materna”, do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da UFPE, conclui que a exposição da mulher à violência por parceiro íntimo (VPI) aumenta o risco do uso de práticas educativas violentas direcionadas às crianças, associando-se a agressão física e, principalmente, psicológica. “Os resultados mostram que há a necessidade de oferecer esclarecimentos às mulheres sobre os cuidados maternos, e dos riscos que o contexto de violência oferece para a saúde física e mental tanto da mulher quanto de seus filhos”, afirma a autora da pesquisa, Josianne Maria Mattos da Silva.

Para a pesquisa foi realizado um estudo transversal com 631 mulheres do distrito sanitário II da cidade do Recife, que engloba os bairros do Alto Santa Terezinha, Água Fria, Arruda, Beberibe, Bomba do Hemetério, Campo Grande, Cajueiro, Campina do Barreto, Dois Unidos, Encruzilhada, Fundão, Hipódromo, Linha do Tiro, Ponto de Parada, Porto da Madeira, Peixinhos, Rosarinho e Torreão. Na análise da VPI, foi utilizado um questionário que teve como referência o questionário do Estudo Multipaíses sobre a Saúde da Mulher e Violência Doméstica da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Da mesma maneira que a VPI repercute de maneira negativa nas mulheres, a violência praticada contra a criança também gera consequências podendo, por exemplo, repercutir negativamente na vida social e escolar e ampliando seus efeitos à vida adulta”, explica Josianne. A violência contra a mulher é um problema social que vem sendo bastante discutido nos últimos anos. Só nos seis primeiros meses de 2015, a Central de Atendimento à Mulher registrou mais de 360 mil ligações, na maioria delas denúncias de violência cometida por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo.

O trabalho teve como objetivo fazer uma análise entre a associação da violência cometida contra mulheres por parceiro íntimo e a prática educativa materna (PEM), a partir da hipótese de que mulheres vítimas desse tipo de violência fazem uso, mais frequentemente, de práticas educativas violentas contra seus filhos, do que mulheres não vitimadas. “Estudos sobre as consequências da VPI na relação mãe-filho ainda são escassos, principalmente no Brasil. Então, para compreender a relação da VPI com outras formas de violência, fizemos um recorte com foco na violência praticada pela mãe contra a criança”, diz a pesquisadora.

Josianne fala ainda que chama a atenção o grande uso de práticas educativas maternas com uso de violência, tanto física quanto psicológica. Isso acaba mostrando que há uma naturalização dessas práticas, e o quanto elas são socialmente aceitas como estratégias adequadas de disciplinamento infantil. Ao mesmo tempo, a associação encontrada entre VPI e PEM alerta para a necessidade de proteger mulheres e crianças da violência, expondo o cenário de vulnerabilidade em que esses se encontram. Para concluir, a pesquisadora diz: “A mulher vítima de violência pelo parceiro e a criança agredida pela mãe evidenciam tanto a violência que se expressa na desigualdade de gênero e relações de poder, quanto a que se naturaliza nas relações parentais, reproduzindo-se nas práticas educativas”.