• Ceclin
mar 15, 2009 0 Comentário


Maioria dos pacientes pede que o médico receite medicamentos

Nas prateleiras das farmácias já é possível encontrar pílulas contra a celulite, para evitar a calvície, para combater sintomas da TPM. Na parte de remédios que agem no comportamento, as novidades vão além. Há remédios que são vendidos para crianças que são ativas demais, pessoas quem têm medo de falar em público e um laboratório já anunciou que está desenvolvendo um medicamento para acabar com a timidez.
Esse exagero da indústria farmacêutica é criticado no livro Os fármacos na atualidade, organizado pelo professor de medicina social da Universidade Federal de Juiz de Fora José Augusto Cabral Barros.

“Hoje há um uso indiscriminado de medicamentos. E não somente pelas pessoas que se automedicam, como também pelas que recebem receita. Os médicos não têm mais tempo para ouvir os pacientes, saber da dieta, da vida que eles levam. Mas sempre têm tempo para passar o remédio”, alfineta o professor, que por 28 anos ensinou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A ânsia da solução rápida por meio de medicamentos é tão grande que muitas pessoas procuram os consultórios em busca de remédios para doenças que não existem. Solidão, envelhecimento, jet lag, celulite e até ansiedade por ter um pênis pequeno são algumas das queixas mais freqüentes de pessoas saudáveis que vão para o consultório, segundo uma pesquisa realizada em 2004 por uma revista de medicina espanhola. “Não se pode tomar remédio para isso, mas aplicam pretensas soluções médicas para o que se tem origem sócio-econômica e emocional”, avalia.

E os pacientes não reclamam em receber cada vez mais e mais remédios. Eles até pedem. Em Pernambuco, uma pesquisa comandada por José Augusto concluiu que 80% dos pacientes consideram o momento que o médico faz a receita como o mais importante da consulta. O dado mais preocupante é que 75% dos entrevistados pedem para o médico passar algum remédio – se eles não passarem antes.

Propaganda – A cada ano que passa as indústrias farmacêuticas investem mais em propaganda. Só no ano passado foram US$ 120 bilhões – que, obviamente, são repassados ao valor do produto. Propaganda, muitas vezes, irregular. Uma pesquisa da UFPE feita com revistas voltadas para médicos indicou que 30,4% das páginas deste tipo de publicação de anúncios. E apenas 20% deles traziam informações sobre os perigos dos medicamentos, contrariando as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Para o professor José Augusto Barros, o aumento da propaganda está diretamente ligado com o crescimento no consumo de medicamentos desnecessários. “A TPM virou doença disfórica da mulher; a tristeza, desequilíbrio químico de serotonina. Somos todos potenciais doentes e devemos nos preocupar com isso o tempo todo”, avalia. “No grego, phármakon significa também veneno. Se as pessoas se lembrassem disso, talvez tivessem mais cuidado”, alerta.

Por Maria Carolina Santos,
da Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR