Ceclin
Maio 13, 2012 0 Comentário


Mães com a bola toda

FUTEBOL FEMININO Jogadoras do Vitória, Joice e Lili Bala dividem as atenções entre os treinos, jogos e filhos

Jornal do Commercio

A maternidade chegou cedo para a lateral Joice e a atacante Lili Bala do Acadêmica Vitória. Aos 26 anos, sem planejar, elas deram à luz a João Pedro e Caio, respectivamente. Se a vida de jogadora de futebol já não é fácil, fica ainda mais complicada quando se tem um filho. As duas precisam dividir as atenções entre o cuidado e a educação dos meninos e a performance nos gramados. As mães de primeira viagem, no entanto, adotaram a velocidade, característica peculiar nos jogos, para se adaptarem à nova realidade. Quando estão em Vitória de Santo Antão, as crianças, que estão com três anos, praticamente fazem parte do grupo de atletas. Moram no alojamento e estão presente nos treinamentos e nas partidas.

Os meninos são os xodós das outras jogadoras. É beijo, abraço e brincadeira o tempo inteiro. Só não ficam perto quando estão treinando. Aí é que João e Caio se soltam. O primeiro está sempre com brinquedos, já tem um bom domínio de bola e não nega ser filho de uma atleta. O pai dele, que por coincidência se chama Caio, também jogou futebol profissional, passou por alguns clubes, mas desistiu da carreira. “Se ele quiser ser jogador, a gente vai incentivar, mas ele tem de jogar de meia para frente, porque os pais são laterais”, brinca Joice, que teve passagens pela seleção brasileira e pelo Santos, onde foi bicampeã da Copa Libertadores.

A lateral só descobriu que estava grávida aos cinco meses, mesmo assim ainda fez uma partida. Apesar da dificuldade de ter de ficar um tempo sem jogar, Joice não desistiu do futebol. “Nenhum momento passou pela minha cabeça parar de jogar. Pelo contrário, é uma motivação a mais. Quero que meu filho me veja jogando”, assegura. “As meninas adoraram ele, às vezes, ele fica bravo porque elas querem ficar beijando e abraçando o tempo todo”, completa.

O fato de serem mães faz com que elas tenham uma responsabilidade maior perante o grupo, pois a maioria das atletas mora longe de casa. “Elas se sentem nossas filhas e querem também o carinho de mãe, pedem para fazermos um bolo, uma lasanha”, conta.

Mais do que nunca, neste Dia das Mães, as jogadoras terão de fazer este papel. “Esta vai ser a primeira vez que ele não estará comigo. O coração está apertado”, afirma Joice. João Pedro está de férias em São Paulo com o pai.

Já Lili passará o dia de hoje com Caio. Antes, ele morava com ela em Vitória de Santo Antão, mas, agora, está com o pai no Recife. “Morei dois anos com ele na concentração. Foi uma experiência boa porque ele ganhou várias mães”, comenta a atacante.

Se João tem bom domínio de bola, Caio não larga as luvas e sempre pede para chutarem a bola para ele defender.

Os dois se dão bem e não têm muitos atritos. “De vez em quando tem uma arenga, mas, depois, eles fazem as pazes”, conta Lili, que também não pensou em pendurar as chuteiras quando teve o filho. “Nós somos as mães guerreiras das Tabocas”, decreta a atacante, em referência ao termo Guerreiras das Tabocas, como as atletas são chamadas pela torcida.

Concentração maternal

De um aspecto, Caio e João não podem reclamar: eles têm várias mães. No dia a dia, as mamães biológicas estão presentes também, mas, quando elas viajam, as substitutas assumem o posto. Os meninos, normalmente, não acompanham o time quando o Vitória enfrenta adversários de fora do Estado. As jogadoras que não são relacionadas é que ficam com eles, geralmente João, pois Caio tem família no Recife.

Normalmente, as mães substitutas são do ataque. Apenas duas vão para o banco de reservas. As que mais assumem o posto são Carol Baiana, Jenyffer e Taliane.

De acordo com elas, a hora mais crítica é quando os meninos acordam durante à noite e chamam a mãe.

“Nós nos sentimos verdadeiras mães porque temos de cuidar e alimentar. Ele (João) não dá trabalho. Quando ele chama pela mãe, inventamos alguma coisa para ele não chorar”, conta Jenyffer. “É uma relacionamento de família mesmo, porque eles sempre conviveram conosco. Criamos um vínculo”, completa a atacante, que tem apenas 17 anos e mora longe da família.

“Brincamos que elas são as nossas mães. Isso é importante porque moramos distante das nossa famílias e acabamos aprendendo a lidar com isso”, comenta Jenyffer, que é filha do ex-volante do Flamengo e da seleção brasileira Uidemar. Por sinal, o ex-jogador foi contratado no fim do mês passado para comandar o Vitória masculino no Campeonato Pernambucano da Série A2, que começará em junho.

Para Carol Baiana, a presença das crianças ajuda a aliviar a rotina das jogadoras. “É muito prazeroso tê-los conosco. Eles dão um ar divertido ao trabalho. Cuidamos como se fossem nossos filhos”, afirma a atacante, que também tem 17 anos.

“Tanto a Joice quanto a Lili são verdadeiras guerreiras. Elas têm de trabalhar duro, viajar e ainda têm de ser mães”, acrescenta.