• Ceclin
mai 20, 2010 1 Comentário


Líder sem-terra é morto em Pombos

Publicado em 20.05.2010

Zito José Gomes, coordenador de um acampamento da Fetraf, em Pombos, no Agreste, levou tiro na nuca, ontem pela manhã

Um líder sem-terra foi assassinado a tiros, ontem, em Pombos, no Agreste do Estado. Zito José Gomes, 64 anos, coordenava um acampamento ligado à Federação de Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf-PE). Dirigente sindical, a vítima residia numa área localizada nas proximidades da Usina Nossa Senhora do Carmo, que está falida.
Por volta das 7h, Zito, que estava desempregado, seguia para a igreja evangélica, onde fazia bico como pedreiro. A vítima levou tiro na nuca, quando andava pela área central de Pombos. De acordo com a polícia, ainda não há uma linha investigação definida para o caso. Suspeitos não tinham sido identificados até o fechamento desta edição, às 21h30.

Para as lideranças da Fetraf, no entanto, o crime pode ter sido encomendado. “Acreditamos que o acusado pode ter alguma ligação com o pessoal que passou a administrar a usina. Os donos da terra estão fazendo de tudo para que ela não seja desapropriada. Zito era um grande lutador, queria que isso acontecesse”, disse o coordenador-geral da Fetraf, João Santos.

Segundo ele, a demora do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em decidir o futuro de famílias que lutam há sete anos por desapropriação de área da usina é uma das causas de conflito na região. “O Incra é o corresponsável pelas mortes. Tem técnico ganhando dinheiro pra sentar nesse processo e fazer com que a desapropriação não saia.”

Para o superintendente do Incra em Pernambuco, Abelardo Siqueira, as acusações são infundadas. “A vistoria nessas terras já foi feita e agora documentos estão sendo enviados para Brasília. O fato é que nós temos que obedecer a certas burocracias. O órgão não tem o poder de chegar em um lugar e fazer vistorias. A demora do Incra não faz morte de ninguém.”

Embora o Incra garanta que o processo de desapropriação esteja em andamento e que o problema será resolvido, integrantes da Fetraf temem pelo futuro dos moradores do acampamento. “Eles dizem que vão me matar. Que não vou conseguir pegar a terra, que é melhor eu desistir de tudo isso, pois posso me dar mal”, conta um dos coordenadores da área, que preferiu não ser identificado.

Ele revela que há 12 anos um outro trabalhador, Cícero Gomes, foi assassinado na região, mas até agora, o responsável continua impune.
“Não temos como provar nada. Mas a mesma pessoa que acreditamos ter matado Zito é o acusado de matar também Cícero. Ele tem um processo na justiça por esse crime”, conta.

Até o começo da noite de ontem, o delegado que está cuidando do caso, Sérgio Moreira, não tinha pistas do assassino de Zito. O fato de a vítima fazer parte da Fetraf também era desconhecido pelo policial. “Conversei com três irmãs e com o pastor da igreja onde ele prestava serviço, mas nenhum deles mencionou esse fato.”

Os responsáveis pela Usina Nossa Senhora do Carmo não foram encontrados para comentar as acusações feitas pelos integrantes da Federação. E a família de Zito José não quis se pronunciar sobre o fato. O enterro será às 8h de hoje, em Pombos.
(Jornal do Commercio).