Ceclin
mar 26, 2009 4 Comentários


Historiador afirma: “Tapacurá não existe”

Foto: Helder Sóstenes, Correio do Interior.

por Melicio Oliveira.

Responsável pelo abastecimento de aproximadamente 1.5 milhão de pessoas no Grande Recife, o rio Tapacurá tem suas nascentes na Serra das Russas, onde num capricho da natureza duas vertentes, em Chã Grande e Pombos, formam um rio de 72 km de extensão, passando também por Vitória de Santo Antão e São Lourenço da Mata.

Ao longo dos anos, a falta de infra-estrutura necessária para absorver o crescimento das cidades que margeiam o rio, vem transformando o Tapacurá em um esgoto. Sistematicamente, o rio vem perdendo sua beleza e seus atrativos, como a pesca, sendo negligenciado pelas autoridades competentes que parece fecharem os olhos para a gravidade do problema.
Em recente pesquisa acerca do rio Tapacurá, o professor, historiador e escritor vitoriense André Fontes, chegou a uma conclusão curiosa, ou seja, a de que ao longo dos anos, o nome do rio vem sendo grafado de forma errônea, onde o seu nome original seria Itapacurá, que significa “rio da pedra que tampa” ou “rio da pedra tampada”.
O nome Itapacurá, é de origem indígena, e faz referencia as muitas pedras existentes no leito do rio que afunilam o fluxo de suas águas, e cita como exemplo a ponte do Amparo, na PE 50, próxima ao Monte das Tabocas em Vitória.
“Tapacurá não existe, nos dicionários da língua Tupi-Guarani não existe essa grafia, mas sim Itapacurá. Durante meus estudos descobri o seguinte: que I (substantivo) é rio, água; ITÁ (substantivo) é pedra; PA (substantivo) é espaço; CURA (verbo) é tampar, fechar. Fazendo a aglutinação das palavras indígenas teremos: I (rio) + ITA (pedra) + PA (local) + CURA (fechar, tampar), ou seja, Itapacurá”, afirma o historiador.

Com base na pesquisa de André Fontes, até hoje, as pessoas de mais idade sempre se referem ao rio como sendo Itapacurá, ou seja, eles mantém, a grafia e a fonética corretas.

Comprovadamente, a língua Tupi-Guarani é bastante precisa, simples e principalmente simbólica. Quando os índios nomeavam determinado lugar (ou pessoas, animais etc.) procuravam suas características mais notáveis. No caso do rio mencionado, em seu leito, ainda hoje existem grandes rochedos que dão à ligeira impressão que tampam a passagem da água, como uma barragem.
O estudo revela também que “I” e o “PA” confirma a precisão da Língua indígena, onde a primeira sílaba indica rio, ou melhor, da à função de rio à palavra seguinte (adjetiva); a segunda refere-se a espaço ou local, ou seja, indica um determinado local, um determinado ponto. Desta forma numa tradução mais precisa teríamos o seguinte: “o local onde as pedras tampam/fecham o rio”.
“Por qual motivo o I (que dá a função de rio a palavra ITA) foi abolido, nos é desconhecido. De qualquer forma esta supressão não é regra, pois, várias palavras continuam com a mesma grafia indígena, a exemplo temos: Itamatamirim e Itamaracá.

Esta supressão, inclusive, não é aplicada nas palavras onde o ITA, tem o significado apenas de pedra, como é o caso de ITABERABA (ITÁ = pedra + BERABA = brilhante). Na pior das hipóteses, com esta supressão, a palavra TAPACURÁ significaria “pedra tampada” ou “pedra que tampa”; a função de rio estaria condenada.

As autoridades governamentais, instituições de ensino, órgãos públicos, jornais, rádios e principalmente os professores deveriam trabalhar no sentido de corrigir este pequeno erro. O rio Itapacurá deve manter a sua grafia original, motivado, pois, principalmente, devido a importância Histórica e econômica que ele representa para a nossa região, sem citar é claro, do erro gramatical praticado”, finaliza Fontes em seu estudo.



por Melicio de Oliveira,

do Jornal A VOZ DO PLANALTO.