Ceclin
Maio 29, 2009 8 Comentários


Generalização certa

Por Cristovam Buarque

Vi um adesivo de carro com o lema: “Tenho vergonha dos políticos brasileiros”. Pensei em adaptar para: “Tenho vergonha dos motoristas brasileiros”. Afinal, somos o País com maior índice de assassinatos no trânsito. Pensei que a lista de adesivos poderia ser bem maior.
Alguns exemplos seriam: “Tenho vergonha dos profissionais liberais brasileiros”, porque nos perguntam se queremos pagar com ou sem recibo, ou “Tenho vergonha dos contribuintes brasileiros”, porque sonegam impostos, ou “Tenho vergonha dos alfabetizados brasileiros”, porque são capazes de conviver tranquilamente com 14 milhões de compatriotas incapazes de ler, de reconhecer a própria bandeira. Ou ainda, “Tenho vergonha dos eleitores brasileiros”, porque foram eles que elegeram os políticos que envergonham os brasileiros. Mas não generalizo: há motoristas cuidadosos e políticos decentes. O adesivo deveria ser “Tenho vergonha dos brasileiros que generalizam”.
Aqueles adesivos só se aplicam quando atribuirmos os defeitos de alguns a todos os demais membros de uma categoria profissional.

Aquele motorista com o adesivo no carro atribuiu incorretamente o comportamento corrupto a todos os políticos. Mas, certamente, nem pensou em generalizar a incompetência que impede as lideranças políticas de mudarem os rumos do Brasil. Ele está corretamente incomodado com os políticos que se apropriam do dinheiro público, mas muito provavelmente aprova as políticas orçamentárias que constroem mais viadutos do que escolas. Ele também não deve se incomodar com políticas que o beneficiam – como a redução do IPI de automóveis –, mesmo que isso reduza os recursos que atenderiam às necessidades da população pobre. Ele se declara contra a corrupção no comportamento dos políticos, mas é conivente com a corrupção nas prioridades das políticas públicas que o beneficiam.

A diferença entre os políticos e as demais categorias é que, embora seja um erro generalizar, no que se refere ao nosso comportamento ético, é correto generalizar nossa incompetência para administrar o País: eliminar a corrupção, acabar com as vergonhas que sentimos. É um erro considerar que o comportamento corrupto está generalizado entre todos os políticos, mas é correto generalizar a responsabilidade dos políticos na aprovação das políticas públicas que fazem do Brasil um País atrasado, dividido, não civilizado, desigual.

O adesivo certo seria “Tenho vergonha das políticas públicas brasileiras e dos políticos que as criam e aprovam, beneficiando a atual minoria privilegiada, e prejudicando a maioria excluída e as gerações futuras, que ficarão sem os recursos que estamos desperdiçando agora”. Outra sugestão de adesivo seria “Tenho vergonha de ser mais um brasileiro que incinera florestas e cérebros”. Ou, quem sabe, “Tenho vergonha de queimarmos, por minuto, o equivalente a seis campos de futebol na Amazônia, e 60 cérebros de crianças, jogadas para fora da escola.”

Mas esses adesivos, além de muito compridos, não seriam bem compreendidos, porque, com nosso baixo nível de educação, somos incapazes de entender nuances e detalhes. Só entendemos as generalizações simplificadas.

O adesivo certo talvez fosse: “Tenho vergonha do grau de deseducação dos brasileiros”. Afinal, esta é a generalização aceitável: a deseducação dos brasileiros que não foram educados, e também a dos que receberam educação, mas não a usam, ou a utilizam apenas em benefício próprio, sem nenhuma consideração pelo Brasil – presente e futuro.

por Cristovam Buarque,
é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF.