• Ceclin
jun 07, 2019 0 Comentário


Estudantes de Moreno sofrem com escolas precárias e merenda incompleta

Sala de aula para reforço é improvisada na entrada da Escola Municipal Otoniel Lopes. Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem

Sala de aula para reforço é improvisada na entrada da Escola Municipal Otoniel Lopes. Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem

Colégios da rede municipal de Moreno têm problemas estruturais. Falta água para manutenção e para beber

por Margarida Azevedo, do Jornal do Commercio

Alunos e professores da rede municipal de Moreno, na Região Metropolitana do Recife, sofrem com infraestrutura precária das escolas, ausência de material e merenda insuficiente. A falta de água, para uso nos banheiros e cozinhas, é outra dificuldade. Há casos também de não haver água mineral para os estudantes. A situação, denunciada diversas vezes por pais e docentes, vem sendo acompanhada pelo Ministério Público Estadual, que firmou um pacto com a gestão municipal e estipulou prazos para resolução dos problemas.

Na Escola Municipal Noemi Guerra, no bairro Alto da Liberdade, os estudantes ficam em horário integral, das 7h15 às 16h30. Mas nem sempre a rotina é cumprida. Quando falta água, as turmas, todas de anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano), são liberadas mais cedo. “Eles passam o dia na escola, mas a qualidade da merenda às vezes é ruim. Oferecem bolacha seca, sem suco, no lanche. Não tem água pra beber”, diz a dona de casa Ana Paula da Conceição, mãe de um aluno do 7º ano.

A professora de português Lara Guimarães reclama das condições estruturais. “As salas de aula são escuras e quentes. A constante falta d’água dificulta o trabalho”, observa. “Somos 20 professores, passamos o dia na escola. A sala dos docentes é abafada”, conta Adailton Ferreira, que leciona Geografia e História.

Na Escola Municipal Josefa Alves, no bairro João Paulo 2, um buraco na calçada dá as boas-vindas (e põe a segurança em risco) aos 320 alunos que têm idades entre 4 e 12 anos (educação infantil e anos iniciais do fundamental). Semana passada, água de fossa entrou na encanação da unidade e saiu pelo chuveiro. Duas salas de aula foram interditadas por dois dias porque ninguém aguentou o odor de esgoto. No banheiro masculino, uma gambiarra garante a luz acesa. Faltam portas e as descargas estão quebradas.

Quando chove, há infiltração nas salas. “Fica pingando, enche de água”, conta Dhenyffer Rafaela Silva, 4 anos. No pátio, um reservatório para acumular água divide espaço com as crianças na hora do recreio. Também com duas lixeiras, colocadas bem perto de onde os alunos lancham.

Anteontem, a merenda foi bolacha. Sem água na torneira, não foi possível preparar alimento melhor, embora houvesse ingredientes na despensa. Frustrados com o cardápio, muitos alunos desistiram de comer. Brincaram de barriga vazia. “Se pelo menos tivesse leite ou suco pra comer com a bolacha”, lamenta Shefany Andrade, 9, do 4º ano.

“Infraestrutura ruim, não pagamento do piso salarial, merenda sem qualidade. É muito séria a situação na educação de Moreno”, ressalta a presidente do sindicato docente, Josineide Oliveira.

COTA
Na Escola Otoniel Lopes, na comunidade de Nossa Senhora da Conceição, é comum professores e funcionários fazerem cotas para adquirir algum item que falta. Terça-feira, compraram sabão para lavar os pratos sujos da merenda. E coentro para colocar na sopa. No dia seguinte, o marido da professora Adinailma Santos comprou fósforo para garantir que o lanche fosse preparado.

Logo na entrada da escola, uma cena reflete a precariedade da rede. As crianças assistem às aulas de reforço, no contraturno, em local improvisado, com quadro em cima de cadeiras. Dificilmente se concentram. “Mesmo assim os pais dizem que os filhos estão melhorando”, comemora a professora Edina Santos.

INTERVENÇÕES
Uma ordem de serviço deve ser assinada, nos próximos dias, pela Prefeitura de Moreno, para realização de manutenção na estrutura física das escolas municipais (reparos nas Redes elétrica e hidráulica, pintura, conserto em telhados). O investimento será de R$ 827.181.

A previsão da secretária municipal de Educação, Ana Selma dos Santos, é iniciar o serviço este mês. A rede tem 25 colégios, 350 professores e 7.200 alunos. “É uma realidade adversa. As questões estruturais são difíceis, mas não têm nos paralisado. Ao contrário, estamos investindo e buscando melhorias”, assegura.

Com problema sério de abastecimento de água na cidade, a saída encontrada pela Secretaria de Educação para não deixar as escolas sem água é contratar carros-pipa. “Os contratos com a empresa de carro-pipa e com o fornecedor de água mineral acabaram. Por isso houve problemas pontuais. Mas já resolvemos, enquanto uma nova licitação não é concluída.”

Sobre a merenda, a secretária reconheceu que faltam insumos, mas afirma que sempre há lanche. Não existem suco, frutas nem arroz. Verduras chegam raramente. Emergencialmente, serão comprados produtos para suprir as lacunas. “Hoje há dois contratos. Estamos elaborando licitação maior que vai resolver esse problema.”

O promotor de justiça de Moreno, Leonardo Caribé, tem se reunido com a Secretaria de Educação, Sindicato dos Professores e representantes de pais para monitorar as ações da gestão. A próxima reunião será dia 5 de julho. “Se não forem concluídas as reformas das escolas até lá, será ajuizada ação civil pública para obrigar o município a realizá-las”, ressalta o promotor.