• Ceclin
fev 13, 2016 0 Comentário


Epidemia de Zika: Em Vitória, Hospital João Murilo atendeu 3 mil pacientes a mais do que sua capacidade

hospital joao murilo

Uma nova epidemia de altas proporções de zika, chikungunya e dengue causa preocupação em médicos em Pernambuco, que lida com o mais alto número de casos suspeitos e confirmados de microcefalia no País

da BBC Brasil

 

As ocorrências recentes da má-formação em bebês têm sido associadas ao zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Mas, desde o início de janeiro, o número de novos casos registrados em todo o País – que chegou a crescer mais de 40% por semana em dezembro – começou a cair. Atualmente, o Ministério da Saúde investiga 3.670 casos suspeitos de microcefalia. Cerca de 400 foram confirmados e 700, descartados.

O cenário em Pernambuco mostra que as medidas de combate ao mosquito podem ter chegado tarde para evitar novas ocorrências. Em dezembro, o governo pernambucano anunciou que destinaria R$ 25 milhões a esforços para atender as famílias com casos de microcefalia e para ações de combate ao Aedes aegypti.

No entanto, o Estado já registra uma epidemia de arboviroses (doenças transmitidas por mosquitos) cujos números superam o do mesmo período no ano passado. No caso da dengue, cuja notificação é compulsória há mais tempo, o crescimento em relação ao início de 2015 chega a 190%, de acordo com dados divulgados pela Secretaria da Saúde pernambucana.

Em cidades como Vitória de Santo Antão, a cerca de 60 km de Recife, a emergência do Hospital João Murilo de Oliveira atendeu mais de 3 mil pacientes a mais do que sua capacidade – 70% deles com sintomas de uma das três arboviroses.”Entre novembro e janeiro tínhamos uma queda nos atendimentos, mas esse ano já estamos superlotados. O pico das viroses, que era nos meses de março, abril e maio, veio antes”, disse a diretora do hospital, Roberta Camara.

“Muitas pessoas têm chegado aqui com manchas vermelhas no corpo. Até os nossos funcionários estão adoecendo. Estamos superlotados e a sensação é de que estamos enxugando gelo.”

Segundo Camara, o hospital recebeu mais de 90 mães com sintomas que podem ser de zika vírus em janeiro – 40 a mais do que no mês anterior.

Desde o último mês de outubro, a cidade teve 26 casos suspeitos de microcefalia notificados. “As gestantes são um alerta para nós. E elas chegam muito assustadas com a possibilidade de terem zika.”

Desespero
Luciana Verçosa, de 33 anos, falou com a reportagem da BBC Brasil enquanto aguardava resultados de testes para saber se tinha dengue ou chikungunya. O teste para diagnosticar o zika vírus, que é feito em Recife, demora cerca de 15 dias para ficar pronto.

Ela está grávida de cinco meses e há uma semana sente dores nos pés, coceira e tem manchas vermelhas pelo corpo.

“Vim para cá hoje na esperança de a médica me examinar e dizer que não é nada. Nem estou preocupada comigo, sei que as manchas vão passar. É mais com meu filho mesmo.”

Em seu bairro, diz ela, é raro receber visitas de agentes de saúde. Família, vizinhos e colegas de trabalho pegaram algum tipo de dengue, chikungunya ou zika. “Já gastei tanto repelente que nem sai mais o que usar. Na minha casa não tem foco, mas não sei na dos outros. Se for o mosquito, só pode ser na casa de alguém.”

O coordenador-geral de Vigilância em Saúde de Vitória de Santo Antão, Marcos Santos, diz que a cidade ainda não recebeu verba estadual prometida para ações contra o Aedes aegypti. O repasse do governo federal chegou, mas menor do que nos anos anteriores.

Além do lixo espalhado nas ruas – que pode acumular água limpa e servir de foco para as larvas do mosquito –, bairros da cidade costumam ficar mais de um mês sem água. Por isso é comum que pessoas armazenem em casa.

“Nosso problema com o mosquito é grande. A gente fica pensando até quando vai conseguir vencer”, afirma Santos.

“Já tivemos outras epidemias e conseguimos acabar com elas, mas agora vemos que o mosquito está se alastrando. Ficamos até em desespero, porque estamos apagando incêndio com pouca água.”