• Ceclin
jul 11, 2019 0 Comentário


Entidades questionam inquérito policial sobre latrocínio do professor Sandro em Pombos

A titular da Delegacia de Pombos, Maria Carolina Martins, o assassinato de Sandro não é considerado crime de ódio porque teve uma motivação financeira. Foto: PCPE/Divulgação.

Para a titular da Delegacia de Pombos, Maria Carolina Martins, o assassinato de Sandro não é considerado crime de ódio porque teve uma motivação financeira. Foto: PCPE/Divulgação.

O crime que tirou a vida do professor e ativista da causa LGBT Sandro Cipriano Pereira, de 35 anos, não será tipificado como homofobia. Em coletiva realizada na manhã da quarta-feira (10/7), a Polícia Civil detalhou a linha de investigação do homicídio ocorrido no dia 27 de junho, em Pombos, no Agreste do estado. O inquérito ainda não foi concluído, mas é considerado como latrocínio, roubo seguido de morte. Entidades questionam a tipificação do crime e pedem mais clareza nas investigações.

Segundo explicou a titular da Delegacia de Pombos, Maria Carolina Martins, o assassinato de Sandro não é considerado crime de ódio porque teve uma motivação financeira. “Houve subtração de patrimônio. Vários objetos foram levados da casa da vítima, como televisão e cartões bancários. Não houve homofobia. O crime foi praticado com motivação patrimonial”, descarta a delegada.

professor Sandro CiprianoMovimentos sociais de defesa da livre orientação afetivo-sexual apontam contradições na apuração policial e pedem esclarecimentos. “A homofobia não é só matar por ódio. Existe a situação de vulnerabilidade social a qual estamos acometidos. É muito contraditório porque o próprio suspeito confessa que foi por ciúme e a Polícia nega. Existe uma dificuldade de a Polícia assumir que LGBTfobia existe. Eu fico estupefato porque está claro que a homofobia está presente”, defende o sociólogo e presidente do Movimento Leões do Norte, Rildo Veras.

O decreto de número 39.542, de junho de 2013, regulamenta que a Secretaria de Defesa Social (SDS) deve elaborar estatísticas sobre qualquer forma de agressão contra a população LGBT no Estado de Pernambuco. Apesar disso, ativistas sustentam que há uma sub-notificação. Os dados oficiais indicam três casos de assassinato homofóbico em 2017 e apenas um em 2018.

“A Polícia precisa investigar esse crime mais a fundo, porque a gente sabe que os crimes de lgbtfobia acontecem todos os dias. Acredito que o estado de Pernambuco trata a população LGBT como números. Nós somos mais que estatísticas, temos família. Sandro era militante, amigo, filho, e nada mais vai trazer essa vida de volta. Isso foi um crime de ódio”, defendeu o jornalista e ativista LGBT, Rafael Negrão.

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Os parentes de Sandro solicitaram ao Instituto Médico legal (IML), que além da perícia, também fosse feito exame sexológico para indicar se houve violência sexual. Os resultados devem sair em até 30 dias.

O principal suspeito, Anderson Antônio da Silva, foi preso nesta terça (9) e cumpre prisão temporária no presídio de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata. Ele foi indiciado por latrocínio e ocultação de cadáver e pode ficar preso por até 20 anos, caso seja condenado. A Polícia não descarta que outras pessoas estejam envolvidas.

Esquerdinha confessou o crime

Esquerdinha confessou o crime

Segundo a delegada, Anderson mantinha um relacionamento com a vítima havia mais de um ano, mas a família de Sandro não tinha conhecimento e o suspeito namorava uma outra pessoa. As investigações indicaram que os dois saíram juntos da casa de Sandro no dia do crime. Anderson dirigiu o carro da vítima até um local deserto, parou o veículo e atirou contra ele. Após o homicídio, Anderson abandonou o corpo do professor e voltou até a residência dele para praticar o roubo. O carro do ativista foi localizado às margens da BR-232, no Loteamento Menino Jesus, em Pombos. O veículo estava queimado e foi periciado por uma equipe do Instituto de Criminalística (IC).

Ao se entregar, na delegacia de Pombos, o suspeito afirmou ter queimado os bens roubados junto com o carro, versão que foi desmentida após perícia do IC. “O suspeito alegou que teria queimado tudo com o carro. No entanto, os bens não foram encontrados carbonizados pela perícia. Os objetos roubados ainda não foram localizados pela Polícia”, informou a delegada.

Durante o interrogatório, o suspeito contou que houve uma briga entre os dois por causa de ciúmes no mesmo dia do crime. Anderson trabalhava como vigilante informal em um posto de gasolina e não possuía porte de arma. No depoimento, ele não revelou onde escondeu o revólver utilizado no homicídio. A Polícia não descarta a participação de outras pessoas. “Durante esse tempo que os dois se relacionaram de forma oculpa, havia uma troca de vantagens patrimoniais. A vítima presenteava o investigado. Anderson tenta puxar para um cunho passional, mas a motivação por vantagem financeira está clara”, afirmou Maria Carolina.

O corpo de Sandro só foi encontrado no dia 29. Dois homens teriam sido vistos pelos vizinhos saindo da sua residência com o veículo Voyage prata, placa PDS 6578, pertencente à vítima. Dentro de casa, vizinhos teriam encontrado manchas de sangue e perceberam a falta de diversos pertences da vítima. Sandro era diretor do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), em Glória do Goitá, uma organização da sociedade civil que forma jovens, educadores e produtores familiares para atuarem em áreas com a social, ambiental e política. Pedagogo, ele atuou como representante do movimento LGBT, era coordenador estadual e membro do conselho diretor nacional da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong).

Diario de Pernambuco