• Ceclin
mai 25, 2013 0 Comentário


Em Barreiros, assentamento vira um depósito de lixo

Jornal do Commercio

No lugar de macaxeira, feijão e batata, o que se colhe na terra do agricultor Paulo Aprígio da Silva, em Barreiros, a 102 quilômetros do Recife, é lixo. É que a parcela de 5,9 hectares que ele recebeu do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no Assentamento Passagem Velha, abriga o lixão da cidade, onde atuam 24 catadores, oito deles morando improvisadamente na área  Paulo, 55 anos, garante que não recebe aluguel ou arrendamento pelo uso do lote.

“Na época, um funcionário da prefeitura que não me lembro o nome pediu minha ajuda para resolver o problema do lixo, que estava acumulado nas ruas da cidade com o fechamento do antigo lixão. Então, decidi colaborar”, relata. “Dias depois ele voltou aqui e meu deu cópia de decisão judicial a meu favor. Mandou eu guardar bem guardado e mostrar a quem me procurasse para falar desse assunto.” O documento é uma liminar concedida no dia 7 de janeiro de 2010 pelo juiz Rogério Lins e Silva, autorizando a prefeitura a depositar o lixo da cidade no Assentamento Passagem Velha. No pedido de liminar, o governo municipal alega que a medida é emergencial. Já faz três anos e meio que os resíduos se acumulam no local, próximo a plantações e ao Rio Una.

O agricultor diz ganhar dinheiro cortando cana-de-açúcar nas usinas da região, mas atualmente não está “fichado” em nenhuma delas. Ele afirma que preferiu ceder o terreno para a prefeitura no lugar de cultivar a terra porque a agrovila, onde o Incra levantou 60 casas para os sem-terra que constituíram o assentamento, é muito longe das parcelas. “Fica a meia hora daqui. Outro problema é a segurança. O que a gente plantava o povo ia lá e roubava”, justifica Paulo.

Diariamente, a prefeitura deposita no terreno pelo menos dez toneladas de resíduos sólidos. “Faço de duas viagens por dia, uma de manhã e outra de tarde. Às vezes três, depende do volume de lixo que tem nas ruas”, detalhaomotorista do caminhão da Locar Saneamento que tem fixado na porta adesivo informando ser a empresa prestadora de serviço da Prefeitura de Barreiros.

O caminhão tem capacidade para cinco toneladas. A catadora Divaci da Silva, 49 anos, é uma das que atuam no lixão. Ela vive há três anos com o companheiro num barraco sem energia elétrica nem água encanada, erguido em meio ao lixo com tábuas e outros materiais coletados no local. “Meus três filhos, de 22 e 21 anos, também vivem aqui com as famílias deles. Só as crianças que a gente deixa da cidade, com uma mulher que a gente paga para tomar conta”, detalha. Divaci, que nunca estudou e cata lixo há mais de 15 anos, recolhe plástico, vidro, papelão e latas. Os recicláveis são agrupados sem distinção em lotes vendidos a atravessadores. A catadora estima faturar de R$ 200 a R$ 300 por semana. “Mas tem tempos ruins também, quando a gente num consegue nem R$ 180”.

Jogo de empurra entre a prefeitura e o Incra

A prefeitura condiciona o fim das atividades no lixão de Barreiros, atualmente no Engenho Passagem Velha, à autorização do Incra para ouso de terreno em outro assentamento, o Engenho Tentugal, em São José da Coroa Grande, município vizinho.

O secretário de Governo do município informa que foi iniciada no local obra de aterro sanitário. “Seria operado em regime de consórcio, pelos dois municípios, mas foi embargada depois que o Incra reclamou o terreno. Agora estamos negociando de novo”, diz Bruno Perman.

O instituto confirma que está negociando a cessão de terreno do Assentamento Tentugal para a implantação do aterro sanitário. O superintendente do Incra, Luiz Haroldo Rezende Lima, disse que o processo sob análise jurídica. A prefeitura gasta por mês cerca de R$ 200 mil com o lixo de Barreiros, pagos à Empresa Locar Saneamento. “O valor inclui varrição, capinação, remoção de entulho, coleta e destinação do lixo, além de serviços eventuais”, esclarece o secretário municipal de Obras, Hamilton Valença. Segundo ele, são recolhidas de 30 a 35 toneladas por dia.

O Incra informa que denunciou a cessão do terreno, pelo parceleiro do Passagem Velha, à Polícia Federal. No fim do ano passado, equipe do instituto acompanhou agentes federais até o local. Caso seja comprovado que o agricultor recebe pagamento, seja por parte da prefeitura, seja por parte da Locar, ele poderá perder o título de posse da terra.