Ceclin
jun 27, 2010 1 Comentário


Eles não podem esperar tanto

Publicado em 27.06.2010

Famílias da Mata Sul temem que burocracia atrapalhe socorro, como ocorreu em 2005. Em Vitória, há famílias que não receberam as casas prometidas

Andréa da Silva, 19 anos, um dos milhares de pernambucanos que perderam casa, móveis e documentos nas enchentes que devastaram o Estado na semana passada, preferiu não esperar. Juntou o pouco que restou – um fogão velho, uma TV quebrada, panelas, algumas peças de roupa e um colchão puído – e invadiu uma dos casas que está desocupada no Conjunto Habitacional Antônio Costa Rego – Conceição 2, em Vitória de Santo Antão, Zona da Mata.
O residencial, construído para atender os desabrigados da cheia de 2005, só foi entregue em dezembro do ano passado, quase cinco anos depois da tragédia que, como agora, deixou muita gente sem nada. Com medo de que a história se repita e a ajuda governamental demore a chegar, Andréa se apressou para garantir um lugar seguro, longe das inundações, para viver com o marido, a irmã e as três filhas pequenas.
Atento às exigências dos órgãos de financiamento e fiscalização para autorizar a liberação de recursos públicos, o governador Eduardo Campos ressaltou, nos últimos dias, a necessidade de desburocratizar o processo para agilizar a reconstrução dos imóveis destruídos pela chuva. “Vocês viram as cheias de 2005, em que as casas ficaram prontas em 2009. Em uma situação como essa, isso não é possível”, observou Eduardo Campos, quarta-feira passada.

Em Vitória, das 600 residências prometidas na época, 142 ainda não foram entregues. Em Moreno, cidade do Grande Recife também afetada pelo temporal de cinco anos atrás, 182 famílias, das 400 programadas, não receberam seus imóveis. Nos dois, a responsabilidade pela construção é da Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab).

“Minha mãe espera por uma casa desde que perdeu tudo, em 2005. Eu ganhei, mas ela não. É injusto tanto tempo sem ajuda, desamparada, quando sabemos de gente que recebeu duas, três casas. Outros que tiveram direito à casa, mas não ocuparam, deixaram fechadas”, queixa-se Maria José Pereira de Luz. É por isso que ela não critica a atitude de Andréa, que invadiu um desses imóveis. “Se a pessoa não está aqui é porque não precisa. Então deixa para quem não tem onde morar, como essas famílias que, como nós em 2005, perderam suas casas agora”, diz Maria José.

Segundo a secretária de Assistência Social de Vitória, Iara Alencar, a construção das 142 casas que faltam é tarefa do governo estadual. “Não depende da prefeitura. O que podíamos fazer, liberando o terreno, foi feito. Pagamos auxílio-moradia, no valor de R$ 60, para 43 dessas 142 famílias”, afirma. A preocupação dela é que, com o temporal de dias atrás, há outras 826 famílias necessitando de novas casas. “O município não tem recursos. O prefeito já disponibilizou terreno, mas novamente dependemos de verba estadual ou federal”, observa Iara.

“Sei que não é certo invadir, mas não poderia continuar morando no Treze, pois perdi tudo. Vim para cá porque não tenho para onde ir. Ficar em abrigo é péssimo. Se for como aconteceu com as pessoas de 2005, vai demorar demais para construírem novas casas”, diz Andréia, cujo marido sustenta a família fazendo bico. Os moradores do conjunto habitacional reclamam o abastecimento de água é irregular, o policiamento é ausente e faltam esgotos e calçamento.

SEM ÁGUA E ENERGIA

“Pensei que depois de tanto tempo esperando, eles entregariam o negócio direito. Foram quase cinco anos morando aqui e ali até ganhar a casa. Quando chegamos, não tem energia nem água. Sou velho. A cacimba fica a dois quilômetros. Só aguento carregar um balde por vez.” O desabafo é do aposentado Severino José de Lima, 72 anos, pai de cinco filhos, o mais novo com dois meses. Ele teve a casa destruída na enchente de 2005, quando morava no bairro da Pedreira, em Moreno. Em abril, mudou para a Vila Holandesa, o residencial construído para os desabrigados. Oitenta famílias receberam os imóveis em 2006. Outras 138, como Severino, foram contemplados há dois meses. A estimativa é que as outras 182 ganhem a moradia em um mês.

Segundo o presidente da Cehab, Amaro João, as casas que faltam em Vitória devem começar a ser construídas em agosto, com previsão de entrega em dezembro. “Tivemos que refazer o contrato, pois o primeiro caducou. Também foi necessária uma nova licitação”, diz Amaro. Em Moreno, ele explica que as 138 residências ocupadas em abril não foram entregues oficialmente e, por isso, a falta de água e energia. “Autorizamos que ocupassem antes porque havia o receio de que fossem invadidas. Mas a entrega oficial, com toda a infraestrutura, será até o fim de julho, com as outras 182 que faltam.”
(Jornal do Commercio).