Ceclin
abr 06, 2013 0 Comentário


Da resistência à História

MEMÓRIA Em momento histórico e de forte emoção, livro Marcas da Memória, com depoimentos de ex-presos políticos, é lançado na UFPE

Jornal do Commercio

Quem compareceu ontem à tarde ao auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) presenciou um momento histórico. Se o acontecido tivesse sido durante o período militar, com certeza teria sido considerado uma “subversão”, um movimento contra a ditadura militar. Vinte ex-presos políticos, exilados e perseguidos pelo sistema repressivo daqueles anos de chumbo estiveram reunidos no mesmo recinto num ato genuíno de democracia.

Os seus depoimentos que relatam as suas histórias de vida, juntamente com os de outros 20, foram colhidos através do projeto Marcas da Memória, lançado ontem, e hoje constituem documentos históricos. A iniciativa faz parte de uma grande empreitada capitaneada pela Comissão Nacional de Anistia do Ministério da Justiça.

Diante de um auditório lotado, o vice-reitor da UFPE, professor Silvio Marques conseguiu captar o clima. “Este é um momento de grande emoção, porque proporciona um reencontro, com o que foi esquecido e com o que ainda se tem de lembrança daqueles anos terríveis”, disse. A reunião foi proporcionada pelo lançamento do livro Marcas da Memória: história oral da Anistia no Brasil, organizado por Antonio Montenegro, Carla Rodeghero e Maria Paula Araujo. Além de personalidades pernambucanas, foram entrevistados nomes do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que somadas ultrapassam a marca de 100 depoimentos.

O vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira (PCdoB), ex-preso político, fez um discurso emocionado. “Me vem a sensação de que cada um de nós lançou o seu olhar sobre a história. Um olhar de dor, mas também de fé renovada na consciência de que nós estávamos certos. Eu concordo que é preciso rever a Lei da Anistia e punir aqueles que torturaram e ainda estão vivos. Mas o mais importante são trabalhos como estes que contribuem para contar as várias facetas da história recente brasileira”, declarou.

Quando o auditório ainda se preparava para o início do evento, a atmosfera era de confraternização. Muitos abraços e conversas entre aqueles que conviveram durante o regime e compartilharam de um sonho e da luta contra o regime militar (1964-1985). “Esses relatos são da maior importância e vêm num momento em que o Brasil está discutindo e mergulhado em apurar os fatos ocorridos naqueles anos, com a Comissão da Verdade e de Anistia. São também uma maneira de reparação histórica”, disse o ex-preso político Chico de Assis. O evento também prestou uma homenagem ao ex-preso político Ayberê de Sá, um dos depoentes e que faleceu ano passado.

Os depoimentos, gravados em áudio e vídeo e transcritos, estarão em breve disponíveis no site da UFPE e no arquivo do Ministério.