Ceclin
fev 06, 2016 0 Comentário


Criado há 92 anos, Clube de Fado Taboquinhas mantém viva a essência do Carnaval de Vitória

Taboquinhas 2016 - A Voz da Vitóriapor Lissandro Nascimento

O Carnaval da Vitória de Santo Antão tem uma relíquia brasileira, o último clube de Fados do Brasil, o Clube Carnavalesco Misto Taboquinhas perdura no carnaval da cidade durante 92 anos, trazendo o majestoso toque de Portugal para as terras pernambucanas. O Clube foi criado no ano de 1924, no bairro do Cajá e hoje integra cerca de 50 voluntários (com orquestra, as cordas e coral). Sua saída na noite desta sexta-feira (04/02) da Rua Professor Jucá (Casa dos Pobres), na Matriz, antecede o Sábado de Zé Pereira, deixando entusiasmado o folião vitoriense que mais uma vez viu a tradição passar com músicas e fantasias, desfilando com Ciranda de Pau e Corda.

Neste Carnaval de 2016, a agremiação prestou homenagem ao Sr. Severino Gomes Pereira, conhecido por Biu do Violão, falecido num acidente ano passado. Ele era músico a 25 anos das Taboquinhas e deixa eternas saudades no “adeus, adeus Taboquinhas”.

Verônica Carneiro de Andrade, presidente do Clube, recebeu os integrantes ainda cedo, alguns deles inclusive, só se veem neste período. O mais curioso no clube é que não acontece ensaio para o carnaval, sempre tocam as mesmas músicas, dezesseis delas foram compostas pelos próprios componentes, entoadas em alto e bom som durante todo o desfile. Ela contou que ninguém da atual diretoria sabe quem escreveu as músicas. “Não havia essa preocupação de assinar, as pessoas se juntavam e criavam as composições. As letras exaltam acontecimentos históricos da cidade”, observou.

pageTaboquinhas 2016

A agremiação não é apenas um dos mais antigos em atividade no município da Zona da Mata pernambucana, o grupo se destaca pela forma espontânea de brincar. O ritmo português se mistura com o frevo, deixando ainda mais bonito o carnaval de Vitória, dando um toque multicultural à folia de Momo vitoriense.

A rabeca dá o tom da música e em harmonia com cavaquinho, violão, banjo, atabaque e pandeiro compõe a orquestra de 13 músicos. Acompanhando estão os demais com cordão de moças e rapazes, levando tabocas e dando pancadas ritmadas no chão – vestidos como antigos camponeses de Portugal. E no coral, observa-se três porta-bandeiras, duas sinhazinhas e um sinhozinho que completam a performance. Algumas de suas músicas revelam figuras centrais da agremiação, Senhora Helena e Sinhá Pequena, além do sinhozinho, resgatam os engenhos de cana-de-açúcar existentes na região.

“Pedimos passagem e harmonia

Nós somos Taboquinhas em folia

Viemos aqui cumprimentar

Ao povo amigo do lugar (bis)

Tabocas que se ergue altaneira

És mortal na história brasileira

Viemos cantar a tua glória

No Carnaval da Vitória (bis)”.

03 postes com lâmpadas queimadas há meses

03 postes com lâmpadas queimadas há meses na Rua da Casa dos Pobres

Durante seu desfile pelo corredor da folia vitoriense, apesar do pequeno público acompanhando, podiam-se notar centenas de pessoas nas calçadas e varandas atentas e envaidecidas pelo desfile, desde crianças a idosos, provando que as raízes culturais resistem às intempéries do novo tempo, onde quase tudo é descartável. Registrou-se acompanhando o desfile sob uma motocicleta, o ex-prefeito de Vitória, José Aglailson, que todos os anos faz questão de se fazer presente ao desfile.

Por fim, este patrimônio cultural penou na saída por conta da escuridão, pois a Rua Professor Jucá estava com três postes de iluminação pública queimados em sequência e não havia nenhum agente de trânsito na área, ambas as ações de responsabilidade da Prefeitura local.

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HISTÓRIA

As Taboquinhas foi fundado em 1924, provavelmente derivado do Clube de Fados Canna Verde (Recife). As Taboquinhas ainda brincam no carnaval, dois cordões de moças e rapazes desfilam vestidos com as cores de Portugal, estandarte e flabelo à frente, Senhora Helena e Sinhá Pequena no centro.  Todos vão levando ao ombro uma taboca, de cerca de metro e meio, planta da família do bambu.  Quando cantam,  marcam o ritmo batendo-a no chão,  e a música  tem evidente vinculação com o frevo-de-bloco, inclusive pela presença de instrumentos de pau e corda: violino, rabeca, cavaquinho, violão, atabaque, pandeiro. As coreografias consistem em evoluções no cordão.

No começo, apenas homens desfilavam no Clube de Fado Taboquinhas, que fazia apresentações no Carnaval, São João e Natal, tocando fados. “Como não havia mulheres, parte deles usava roupas de dama”, contou Verônica. O ritmo mudou, tendendo para o frevo, quando o clube passou a circular só no Carnaval. Com a entrada de mulheres no grupo, o nome foi substituído para Clube Carnavalesco Misto. As raízes lusitanas fazem referência ao português Diogo de Braga, fundador da cidade. O nome surgiu em homenagem a Batalha das Tabocas, no dia 3 de agosto de 1645.

Aliás, a música dos Taboquinhas é um tanto curiosa. Eles nasceram em 1924 como Clube de Fado e têm 16 composições próprias. Quatro delas bem populares. Com o passar dos anos, as canções melancólicas portuguesas foram se aproximando do frevo.