Ceclin
jun 15, 2009 0 Comentário


Corrida ao pódio da literatura

Publicado em 14.06.2009

Dois autores pernambucanos estão na disputa dos dois prêmios mais importantes no Brasil: Ronaldo Correia de Brito e Walther Moreira

Schneider Carpeggiani
[email protected]

A aproximação do segundo semestre marca a corrida pelo calendário de prêmios literários. Os primeiros a definir os concorrentes foram o Portugal Telecom e o Prêmio São Paulo de Literatura, este aí que tomou a liderança no ranking financeiro – R$ 200 mil para o livro do ano, desbancando os cobiçados R$ 100 mil do Portugal Telecom. Dois autores locais estão na disputa, Ronaldo Correia de Brito (em ambos), por Galileia, e Walther Moreira (Prêmio São Paulo), com O ciclista.
Ronaldo Correia de Brito é unanimidade da crítica com seu primeiro romance, Galileia. A obra detalha o esfacelamento de uma família (ou de uma época) durante o retorno para um lar impossível. Para o autor, a trama perfila as transformações que o Brasil atravessa hoje. Não mais o Brasil “do aqui” do regionalismo, mas o “do agora”.
O incremento das cifras dos prêmios literários vai de encontro à máxima de que o Brasil é um país de mínimos leitores. “Os leitores de livros impressos diminuíram no mundo inteiro, mas o mercado continua crescendo e surgiram outras formas de leitura com a internet. Comparado à Espanha ou aos Estados Unidos oferecemos pouquíssimos prêmios aos nossos escritores. Os prêmios estimulam a escrita, movimentam o mercado editorial, criam notícias sobre os livros. No hospital onde trabalho (Ronaldo é também pneumologista), os maqueiros, os serventes, as copeiras e as auxiliares de enfermagem sabem que eu concorro a um prêmio de duzentos mil reais porque escrevi um romance. Todos olham para mim com muito mais respeito pela minha atividade de escritor”, atesta.
Apesar do excelente impacto do romance, Ronaldo volta para os contos no próximo ano. Afinal, precisa se livrar dos “guardados”. “Eu comecei a escrever bem cedo e a publicar muito tarde. Tenho contos engavetados que desejo publicar. Escrevi textos provocativos sobre a questão do feminismo, quando ele estava no auge. Mas só publiquei quarenta anos depois, quando parecia anacrônico. Esse descompasso com o tempo é ruim. Galileia está bem na mídia porque é um livro escrito para o momento atual, com questões de migração, globalização, choque de culturas, prostituição, homossexualismo e por aí afora. Por isso vou publicar um novo livro de contos em 2010”.
Com o romance O ciclista, Walther Moreira retoma o mito do visitante que perturba o que ficou estabelecido como normal. É seu livro mais bem-sucedido desde que estreou em 2000 com Dentro da chuva amarela, relato sobre o transtorno bipolar, escrito sob o pseudônimo William L. O ciclista já derrubou 500 concorrentes do curitibano Prêmio José Mindlin de Literatura. “Sou filho espiritual do Borges e do Júlio Cortázar – gosto de jogos, de labirintos e de armadilhas. Enquanto leitor amo, ser surpreendido – e quando consigo surpreender quem me lê sinto que o trabalho valeu a pena – e o romance pode tudo, eis sua grande beleza. De modo geral tenho tido sorte, boas repercussões, desde a estreia”, comenta Walther.
Para o autor, o Brasil ainda é carente de prêmios literários. “Dos mais de cinco mil municípios do País, apenas meia dúzia deles possuem prêmios literários regulares e quase a totalidade desses municípios estão concentrados no Sul. A primeira providência do novo secretário de cultura da Manaus, por exemplo, foi extinguir o prêmio literário que havia por lá. Fizeram o mesmo com o Casa de Cultura Mário Quintana, de Porto Alegre, e com o Cidade de Curitiba. Cada escola, cada editora deveria ter uma versão de prêmio literário, só assim seremos um país de leitores e – por extensão – desenvolvido. o grande prêmio, no entanto, é e sempre será ser lido”, conclui.
(Jornal do Commercio).

MATÉRIAS VINCULADAS