Ceclin
fev 20, 2011 0 Comentário


Capivaras ocupam antigos canaviais em Vitória de Santo Antão


Publicado em 20.02.2011

Grupos de até 12 animais foram registrados no Engenho Pombal, Vitória de Santo Antão, Zona da Mata, às margens de um açude do Sistema Tapacurá

Verônica Falcão

Maior roedor do mundo, a capivara está colonizando áreas antes ocupadas por canaviais da Zona da Mata, em Pernambuco. Grupos de até 12 animais foram registrados no Engenho Pombal, em Vitória de Santo Antão, a 53 quilômetros do Recife. Os bichos vivem às margens de um açude do Sistema Tapacurá – responsável pelo abastecimento de 36% da Região Metropolitana, segundo a Compesa –, que banha a propriedade rural.

A primeira observação ocorreu em 2009, próximo à casa-grande do engenho, de 400 hectares. “No ano passado, as observações se tornaram mais frequentes e os grupos, maiores”, relata um dos herdeiros do imóvel, o funcionário público federal Sérgio Andrade Lima. Os animais, segundo ele, chamaram a atenção de caçadores, que passaram a persegui-los com armas de fogo. “Embora a caça seja proibida por lei, infelizmente ainda ocorre na região.”
Na opinião do biólogo Yuri Valença, o fim do cultivo da cana-de-açúcar na propriedade, cerca de 20 anos atrás, favoreceu o aparecimento de capivaras. “São animais que precisam de áreas alagadas e capim baixo”, justifica o pesquisador, que visitou o engenho a pedido do Jornal do Commercio. Yuri, que faz mestrado em biologia animal na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), já estudou capivaras num quartel do Curado, na Zona Oeste do Recife.
De hábitos noturnos, esses mamíferos herbívoros têm o hábito de pastar no fim da tarde e início da manhã, sempre perto de áreas alagadas. Hábeis nadadores, costumam se refugiar na água quando assustados. No caso dos grupos de Vitória, jacarés são a principal ameaça, uma vez que a onça, outro predador natural, não ocorre mais no local.
A ocupação de novas áreas, na avaliação do biólogo, é ocasionada pela escassez de alimento ou formação de novos grupos. “Os bandos são constituídos por um macho dominante, machos jovens e fêmeas reprodutoras. Quando o número de indivíduos se torna muito alto, tendem a se desmembrar. Como a capivara é territorialista, os novos grupos procuram outras áreas. Provavelmente, foi assim que o engenho passou a abrigar esses roedores.”
Os grupos podem ter de cinco a 45 animais. O macho dominante possui a glândula sebácea, localizada no focinho, aumentada. É com ela que marca o território. Os adultos da espécie, chamada pelos cientistas de Hydrochoerus hydrochoeris, atingem 60 quilos e 1,3 metro de comprimento. Menos exigentes que outros mamíferos, não dependem de vastas extensões de florestas.
Próximo à casa-grande e também do Açude de Tapacurá há um mata em regeneração com menos de sete hectares. É lá onde se refugiam tejus, raposas, iguanas e saguis, entres outros animais observados no engenho. Num outro trecho, com 23 hectares, há um açude sem vegetação no entorno. Sergio pretende reflorestar a área, para proteger o aquífero.
O professor do Departamento de Geografia da UFPE Caio Maciel lembra que o Rio Tapacurá, formador do açude que banha o engenho, integra a Bacia Hidrográfica do Capibaribe, cujo nome significa rio das capivaras.
Em 2002, informa o geógrafo, o Atlas da Biodiversidade de Pernambuco, editado pelo governo do Estado, considerou a área do entorno da barragem como de importância biológica extrema. “Apesar disso – e sem falar no aspecto histórico, pois o Monte das Tabocas, onde houve batalha com os holandeses, fica perto –, o Tapacurá sofre grande pressão humana”, denuncia.
Outro fator de pressão, na opinião do professor, são as propriedades rurais nas margens. “Há muitos engenhos falidos ou reconvertidos a outras atividades. Nesses locais, quase ninguém conhece – e portanto, não respeita – as leis ambientais que preveem reserva legal e áreas de preservação permanente (APP).”

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