Ceclin
Maio 18, 2010 0 Comentário


Campanha ataca diretamente a desinformação sobre a Aids


“E então, o aidético já chegou?”.
A pergunta, feita por uma apresentadora de TV, poderia ter acontecido há 20 anos, quando o termo “aidético” ainda era comum para se referir aos portadores de HIV. Mas não. A apresentadora usou a expressão mais que incorreta há cerca de um ano.
Pior: na frente de Christiano Ramos, 41 anos, portador do HIV há 22, que iria dar uma entrevista sobre como é conviver com a doença.

A apresentadora, sem graça, ainda tentou consertar: “Nunca imaginei que você fosse bonito desse jeito”. O paciente Christiano, então, sorriu e fez de conta que o mal-estar sequer tinha ocorrido. “Aquela figura do Cazuza não existe mais. Mas ainda hoje a gente vê pessoas que são supostamente esclarecidas cometendo gafes como essa. Pior do que desinformação, é informação mal dada”, ensina Christiano.

A situação vivida por ele é mais corriqueira do que se imagina, principalmente para os que decidem assumir a doença publicamente. José Carlos Veloso, 42 anos, foi demitido do emprego em uma rede de supermercados quando contou que era portador do HIV.
“A empresa justificou a medida como corte de gastos. Mas eu entrei na Justiça e consegui provar que fui o único a ser mandado embora”, lembra José Carlos.
Isso aconteceu em 1992. Hoje, José Carlos é vice-diretor do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids de São Paulo (Gapa/SP). “Mas o que aconteceu comigo se repete ainda hoje. No departamento jurídico da Gapa, temos um caso como o meu toda semana”, afirma ele.

O infectologista Alexandre Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia no Distrito Federal, diz que muitos portadores do HIV passam por esse tipo de situação por conta da falsa ideia de que, cedo ou tarde, a pessoa vai morrer.
“Muita gente ainda acha que os remédios não ‘seguram’ a doença, que funcionam apenas como um paliativo. Isso não é verdade. O paciente pode ter uma sobrevida igual à de quem não tem o vírus”, esclarece Alexandre.
Outro mito sobre a doença diz respeito às formas de contágio. Mesmo com todas as informações disponíveis hoje, muitas pessoas ainda acreditam que o HIV pode ser transmitido pelo beijo na boca, ao dividir a toalha ou os lençóis ou mesmo ao tomar banho juntos.

“Quando eu contei para os meus colegas de trabalho, até o garçom começou a me tratar de um jeito diferente. Separava o copo e os talheres que eu usava”, lembra Christiano Ramos. “O maior inimigo da Aids é o preconceito”, diz ele, que se aposentou por invalidez e hoje dirige a organização não governamental Amigos da Vida.

Uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde no fim do ano passado confirma o cenário de exclusão. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ouviu 1.260 soropositivos e constatou que 20% deles perderam o emprego após o diagnóstico. “Apesar de a população brasileira ter alto nível de conhecimento sobre o vírus, os levantamentos mostram que o soropositivo vive com a sensação de preconceito constante”, lamenta Mariângela Simão, diretora do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

Campanha

Por conta disso, o ministério lançou no ano passado a ofensiva publicitária Viver com Aids é possível, com o preconceito não. O material da campanha reforçava que portadores do HIV podem levar uma vida como a de qualquer um, inclusive, se relacionando com pessoas que não têm o vírus. “Foi a campanha mais bonita que eu já vi em relação à Aids. Deveria ser ainda mais divulgada”, diz o infectologista Alexandre Cunha. As peças publicitárias tiveram a participação de portadores da doença.

Gravidez possível

Os estudos e levantamentos realizados pelo Ministério da Saúde (MS) nos últimos anos mostram que a taxa de transmissão do HIV pode variar conforme o organismo do paciente.
Isso significa que nem sempre o contato com as secreções de um portador pode significar o contágio da doença. Para se ter uma ideia, o órgão estima que, em 2008, cerca de 3 mil mulheres portadoras do vírus engravidaram naturalmente e tiveram filhos saudáveis. O MS formou dois comitês que estão discutindo orientações para mulheres soropositivas que desejam ter filhos. “Até o fim de junho, vamos ter um documento com recomendações sobre o assunto, para que a pessoa interessada possa tomar uma decisão bem informada”, explica Mariângela Simão.

1 – Ajuda da ciência

Casais sorodiscordantes podem ter filhos saudáveis utilizando recursos de fertilização. Quando a mulher tem o HIV e o homem não, o mais indicado é a inseminação artificial (fecundar o óvulo dentro da mulher).
Se o homem for soropositivo e a mulher não, recomenda-se a inseminação com lavagem de esperma — técnica que retira o vírus da secreção — ou a fertilização in vitro (fecundar o óvulo fora do corpo da mulher).

Verdades e mentiras

Mesmo com a enorme quantidade de informações sobre a doença, ainda existem mitos acerca do vírus.

Veja alguns:

HIV não é a mesma coisa que Aids

Se uma pessoa tem o HIV, significa apenas que ela é portadora do vírus, isso não quer dizer que ela necessariamente terá Aids. A Aids é uma síndrome do sistema imunológico, que deixa o paciente suscetível a doenças oportunistas. Antigamente, HIV e Aids acabavam por significar a mesma coisa — porque a doença era inevitável —, mas os medicamentos de hoje já conseguem barrar o desenvolvimento do mal.

Doença “democrática”

No começo da epidemia, havia a ideia de que a Aids era uma patologia de homossexuais masculinos ou usuários de drogas. Mas isso mudou há mais de 10 anos. Havia, inclusive, o mito de que o homem não pegava HIV de mulher, só de outro homem.
De fato, a transmissão de mulher para homem é mais difícil. Isso porque as mulheres estão mais expostas à doença. A vagina — assim como o ânus — é uma região muito vulnerável. Mas, em todos os casos, há risco de contágio sem a prevenção.

Atestado de morte

Outro mito diz respeito à expectativa de vida dos portadores do HIV. Antigamente, era comum o pensamento de que uma pessoa com o vírus estava condenada à morte. Porém, os remédios atuais conseguem dar ao paciente uma expectativa de vida igual ou maior que a de uma pessoa sem o vírus.

Efeitos perversos

Os remédios que combatem o HIV são difíceis de tomar. Isso já foi verdade.
No fim da década de 1990, o coquetel de medicamentos era bastante violento: os comprimidos provocavam náuseas, vômitos e diarreia.
As pessoas perdiam a gordura do rosto e do corpo por problemas metabólicos causados pelos remédios. Hoje, isso não é mais assim. Os pacientes levam uma vida normal e, muitas vezes, têm mais qualidade que outros portadores de doenças crônicas, como o diabetes.

Do Correiobraziliense.com.br postado por Diario On Line.