Ceclin
abr 21, 2010 0 Comentário


Brasília, uma cinquentona em busca de identidade própria

Agência EFE

Brasília, uma das poucas cidades do mundo erguidas do nada para ser capital de um País, completa 50 anos mantendo-se como um local sem comparações, diferente de todas as antigas metrópoles e ainda em busca de sua identidade própria.

A cidade desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, ainda ativo no auge de seus 102 anos, e pelo urbanista Lúcio Costa, morto em 1998, se consolidou como capital administrativa do Brasil, mas não deixa de ser um lugar estranho, onde, apesar dos amplos e vastos espaços e parques, o concreto se impõe nas construções.
Meio século após sua fundação, em 21 de abril de 1960, a maioria de seus quase 3 milhões de habitantes continua sendo originária de outras regiões do Brasil, dando ao povo brasiliense um ar de miscigenação e um mapa social heterogêneo. Mas ainda assim faltam traços próprios à capital.
Brasília é uma cidade sem esquinas nem referências precisas de orientação, em parte pela monotonia de uma paisagem urbana na qual cada edifício parece uma réplica do outro.
É uma metrópole planificada onde zonas residenciais quase não têm estabelecimentos comerciais e, por outro lado, nas áreas comerciais ninguém mora e nas administrativas só se trabalha.
As grandes distâncias entre um local e outro fazem do carro um artigo de primeira necessidade e seus habitantes ‘seres de cabeça, tronco e quatro rodas’.
Muitos estrangeiros que chegam à capital brasileira se sentem desorientados pelo peso do concreto, embora o horizonte esteja quase sempre à vista e a cidade, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1987, disponha de 50 milhões de metros quadrados de áreas verdes.
Além de se diferenciar das capitais latino-americanas por sua concepção futurista, própria do modernismo de meados do século XX, muitas de suas características a diferenciam do resto do próprio Brasil.
É a capital do ‘país do futebol’, mas não tem um só time na primeira divisão do Campeonato Brasileiro e seu único estádio deverá ser reconstruído quase totalmente para se adaptar às normas da Fifa e ser uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.
Também é a capital do ‘país do Carnaval’, mas não está no circuito dos turistas nas festas de fevereiro. E assim como em vários outros feriados, Brasília vira cidade-fantasma no Carnaval.
Brasília é também a capital de um país de belas praias ensolaradas, mas fica sobre um dos mais altos planaltos do continente, a 1,2 mil metros acima do nível do mar, e a cerca de 1,2 mil quilômetros do litoral.
Ainda assim a cidade tem a terceira maior frota de barcos de esporte no país, com cerca de 12 mil veleiros e lanchas que navegam pelo lago Paranoá, um lago artificial de 42 quilômetros quadrados construído para atenuar o clima seco do cerrado.
Dois dos primeiros estrangeiros que visitaram a nova capital foram os filósofos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que estiveram lá no final de 1960, quando a cidade começava a tomar forma.
Simone de Beauvoir relatou sua experiência no livro “Sob o signo da História”, descrevendo Brasília como “uma grande maquete” carente dessa “mistura caprichosa das ruas, imprevista e tão encantadora, como a de Roma ou Chicago”.
Sartre, por sua vez, observou que a arquitetura de Oscar Niemeyer, apesar de “fascinante”, já então “organizava de forma rígida demais a vida de seus habitantes”.

Meio século mais tarde, as coisas não mudaram muito e a cidade que entesoura muitos dos melhores projetos de Niemeyer divide opiniões.
Seus críticos a consideram “artificial”, “fria” e “sem alma”, mas seus defensores não trocam por nada a tranquilidade bucólica de uma cidade com os mais baixos índices de insegurança, a maior renda per capita e a qualidade de vida mais alta do Brasil. (Folha de Pernambuco)