Ceclin
fev 14, 2011 1 Comentário


Beber é coisa de babaca

Bebo, sim, não nego.
E já fiz muita merda sob os eflúvios etílicos: já brochei, briguei, falei toneladas de besteiras, discuti com mulher, perdi carteiras e documentos, chorei em público, dormi à mesa de bar, dirigi 250km bêbado em cima de uma moto numa rodovia, já acordei ‘n’ vezes sem lembrar nada da noite anterior.

Não me orgulho de nada disso. Daí, venho maneirando há um bom tempo. Quase nunca bebo em bares, tomo um vinho com Iracema ao jantar duas ou três vezes por semana, uma ou duas vezes por mês arrisco uma cachacinha Sanhaçu com Alberto na pousada dele e de Telma aqui em Maragogi, não dirijo mais quando estou bebendo (só falhei nessa resolução uma vez e por pouco não fui apanhado numa blitz do bafômetro). Pretendo ser mais rígido nesse quesito.

E sabem por que? Porque o álcool, exceto tomado em doses mínimas, é um câncer social. Tô parecendo um pastor puritano? Não importa. Vamos aos fatos: leio hoje nos jornais relatório da Organização Mundial de Saúde revelando abre aspas que o álcool já mata mais no mundo que epidemias como a Aids, tuberculose, violência ou guerras fecha aspas. Releiam o trecho entre aspas aí em cima. Viram a gravidade da coisa?

Além disso, o Brasil aparece em primeiro lugar no ‘ranking’ de alcoolismo no mundo, folgadamente, superando os russos e outros bebuns contumazes. Essa Taça aí, positivamente, não é motivo para soltar girândolas.

Antes do estudo, o primeiro em cinco anos sobre o consumo de bebidas, eu já vinha desconfiando dos malefícios sociais do álcool (os pessoais variam caso a caso e dependem da tomada de consciência de cada um).

As evidências, disponíveis nas páginas dos jornais diariamente: o número de brigas, rixas, ferimentos e mortes, assim como o de acidentes de trânsito, cresce exponencialmente todo final de semana em relação aos dias comuns, e mais ainda nos feriados e, sobretudo, feriadões. O motivo, cara pálida, é um só: aumento do consumo de álcool.

Pois então como se explicaria que, justamente nos dias de menor circulação de pessoas e de diminuição do estresse cotidiano e, ainda, de muitos menos carros circulando nas ruas e estradas, aconteçam mais brigas e acidentes? Não é só hipótese: os registros dos prontos socorros e as notícias jornalísticas explicitam a presença sinistra do álcool nos cenários dos crimes e desastres automobilísticos.

Mas não é só: mesmo quando não mata por briga ou colisão, o álcool aleija um monte de gente, mutilando suas vidas e acarretando despesas enormes à rede pública de saúde, em forma de internamentos, cirurgias, medicamentos. O absenteísmo (sabe aquela segunda-feira que a ressaca inutiliza? Multiplique por milhões de dias, ao longo do ano…) reduz a produtividade no trabalho. Sem falar na previdência social, que arca com as aposentadorias precoces e pensões dos prejudicados. Mas todo mundo, toda a sociedade é prejudicada, pois a conta, camaradas, sai do bolso de todos em forma de impostos, mesmo quem seja abstêmio radical.

Companheiros agridem companheiras, casais se desmancham, filhos são espancados, lares abandonados, jovens se tornam traumatizados e revoltados quando um ou os dois cônjuges são alcoólatras. Não seis se já fizeram alguma correlação, mas creio que o crescente número de mulheres cabeças de casal, em especial e de forma cada vez mais freqüente nas camadas mais pobres, isto é, na maioria da população, tem a ver com o alcoolismo dos maridos. Isso não é discurso de aiatolá fundamentalista nem senhoras da Liga pela Temperança, é realidade.

Leio num site médico: “O abuso do álcool e o alcoolismo estão entre os principais problemas da nossa sociedade. O álcool é uma droga como a heroína, a cocaína e o crack. Por que ? Porque vicia, altera o estado mental da pessoa que o utiliza, levando-a a atos insensatos, muitas vezes violentos. Pior, causa mais problemas à família e à sociedade. Infelizmente, faz parte da nossa cultura o seu uso.”

Aí está a questão: “faz parte da nossa cultura”, como o ópio em antigas civilizações asiáticas etc. Isso quer dizer que a droga, pior que a heroína, a cocaína, o crack etc., é aceita socialmente e estimulada.

A maioria de nós já cresceu vendo um pai ou um tio bonachão bebendo; aniversários, casamentos, batizados, festas de natal, ano novo, são João são impensáveis sem que sejam regadas a álcool. O vício elemento essencial dos ritos de iniciação: bebi meu primeiro gole de cerveja (e achei horrível, amarga pra cacete!) aos 13 ou 14 anos, porque queria ser rapaz, ser aceito pelos garotos mais velhos e admirado pelas meninas. Sendo desajeitado pra requebrar, enchia a cara pra tirar as gatas pra dançar nos bailinhos de fins de semana.
Quantos amigos são inaptos para engatar uma conversa descontraída ou produzir competentemente os passos da dança de sedução do sexo oposto (atenção damas: muitíssimas de vocês estão também nesse time!) sem um bom e largo (e repetido, quase sempre) trago?

E não suponham (talvez vocês já saibam, mas evitem pensar a respeito) que alcoólatra é só o papudinho de bochechas lustrosas e mãos trêmulas do botequim do subúrbio. Ou o morador de coberturas incapaz de botar a cara no mundo sem, antes, entornar uma dose da água que passarinho não bebe vinda diretamente da Escócia.
Não, meus caros. Segundo os especialistas, todos que bebam em excesso e pratiquem atos fora do ou contra o estado normal de consciência são alcoólatras (ou alcoólicos, como estão chamando mais comumente agora, mas o termo me parece sempre se referir a algo não humano, como “teor alcoólico”, por exemplo). Alguém aí coloca a carapuça? Eu coloco.

Quase nunca nos damos conta dessas verdades evidentes porque a coisa faz parte da cultura, isto é, estamos imersos nela.

Principalmente por um detalhe: o ato de beber, de tanto ser socialmente aceito, foi incorporado à nossa super-estrutura, isto é, está plenamente legitimado por lei, exceto para menores de idade.

E o fato de estar legalizado torna o vício mais socialmente aceito e aí está formado o círculo vicioso, dificílimo de quebrar, ainda mais por vir reforçado por interesses econômicos poderosíssimos da indústria de bebidas e entretenimento em geral, pela condescendência dos governos que cobram altos impostos (mas que talvez gastem mais com os custos dos prejuízos citados no começo, alguém precisa fazer essa conta, cadê os economistas?). Reforçado, principalmente, pela formidável máquina publicitária, que gasta bilhões anualmente para nos convencer de que ser viciado em álcool é bom, charmoso e faz bem à saúde, além de estar sempre associado a sambistas e jogadores de futebol, ao lado de mulatas gostosíssimas rebolando seus bumbuns maravilhosos numa festa de espuma.
Claro que aquela advertência obrigatória, exposta em letras miúdas nos anúncios impressos e ditos em voz não persuasiva pelos locutores de comerciais (“Beba com moderação”) não passa de hipocrisia, pois os fabricantes querem é que bebamos até cair e levantar para beber de novo, os governos enchem as burras com os impostos da engrenagem comercial-industrial envolvida e nós quase nunca estamos dispostos a parar após um ou dois goles.

“Fazem parte da cultura” as velhíssimas anedotas com o bebinho inofensivo, as tiradas babacas tipo “Deus protege os bêbados”, os milhares de saites chamados Fanáticos do Botequim, Loucos por Álcool, Confraria da Cachaça ou que tais, apresentando as mais constrangedoras e embaraçosas histórias e fotos como troféus. Olhem e vejam o ridículo dos flagrantes, ostentados despudoradamente como feitos esportivos.

Mas o fato, amigos, que me soa patético é ver gente inteligente se gabando do porre que tomou na véspera (quando isso deveria ser segredo de polícia), zombando de quem não é viciado (quando poderia ser o inverso, pois no fundo, quem precisa de metabolizante etílico para as mais prosaicas atividades somos todos dignos de pena e, talvez, de zombaria) e deixando de fazer um monte de coisas interessantes para jogar literalmente conversa fora nesses locais legalmente dedicados ao tráfico dessa droga lícita, tão cantada em prosa e verso por aí afora.

Não defendo a proibição do comércio de bebidas alcoólicas, claro, cujo resultado é o tráfico ilegal e seu rosário de crimes (vide Lei Seca americana da década de 20 e o caso da cocaína e crack no Rio e tantos lugares), mas o máximo de restrições à sua disponibilidade, acesso e propaganda, além de taxação fortíssima. E campanhas fortes dee conscientização para que o cidadão possa escolher entre ser um sensato sóbrio ou um babaca bêbado.Também estou descobrindo (com algum esforço, com algum esforço) ser possível conversar, dançar, trepar, torcer pela Seleção, dizer coisas interessantes, conhecer pessoas, falar em público, sem uma muleta etílica. Ou, pelo menos, buscando parar exatamente naquele momento crucial implícito na célebre frase de Humphrey Bogart (“A humanidade está duas doses abaixo do normal”).

Juntar quatro machos, numa mesa de bar, para falar de mulheres (quando melhor é estar com elas), discutir futebol (correndo o risco de perder um amigo) e, principalmente, gastar tempo e dinheiro pra nada, a não ser ir criando as condições para o desabrochar das cirroses, hepatites, gota e delirium tremens? Tô fora! E se me virem nessa situação num bar, me internem ou me carreguem para casa, porque estarei borratcho.

Por Homero Fonseca