Ceclin
out 29, 2010 0 Comentário


Bactéria em tubarões revela poluição no mar

Publicado em 29.10.2010



Estudo feito na cavidade bucal de cinco cabeças-chatas e quatro tigres capturados na costa de Olinda e Recife mostra que 67,9% das 81 bactérias isoladas são enterobactérias, ou seja, têm origem nas fezes

Não só testes de balneabilidade comprovam a poluição causada pelo lançamento de esgoto nas praias de Pernambuco. Bactérias encontradas na boca de tubarões também. Estudo feito na cavidade bucal de cinco cabeças-chatas e quatro tigres capturados na costa de Olinda e Recife mostra que 67,9% das 81 isoladas são enterobactérias, ou seja, têm origem nas fezes.

“Considerando que esses animais estão sempre em movimento para obter oxigênio da água através de suas brânquias, pelo menos parte da microbiota bacteriana encontrada na boca deles foi proveniente de micro-organismos presentes na água”, acredita o microbiologista José Vitor Moreira Lima Filho, do Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Entre as bactérias comuns ao trato intestinal encontradas na boca dos tubarões estão Enterobacter ssp., Citrobacter ssp., Proteus ssp., Providencia alcalifaciens, Escherichia coli, Moellerella wisconcensis e Leclercia adecarboxylata.

Enterobactérias habitam o trato digestivo monogástrico de animais e do homem. “Por isso quando são encontradas na água, por exemplo, funcionam como indicadores de contaminação de origem fecal”, reforma o microbiologista.

A equipe integrada por José Vitor não avaliou a presença de enterobactérias na água do mar, mas associa a descoberta à poluição na costa pernambucana. “Os esgotos lançados nos rios e mares são fontes de contaminação dessas bactérias.”

O pesquisador não descarta a possibilidade de algumas bactérias encontradas, inclusive enterobactérias, serem naturais da microbiota oral de tubarões. “Devido à carência de dados na literatura, isso ainda está por ser esclarecido.”

Na opinião de José Vitor, independentemente da origem, várias enterobactérias são potenciais agentes infecciosos. “Especialmente como agentes oportunistas, ou seja, aqueles que se aproveitam de uma situação específica como grandes lesões provocadas nos pacientes”, destaca.

O pesquisador explica que a maioria dos sobreviventes costuma sofrer lacerações ou amputações dos membros. “Devido a isso, são tratados com forte doses de antibióticos.” Há registros oficiais no Estado de 53 incidentes entre 1992 e 2009, resultando em 20 mortes. No mundo, as estatísticas indicam a ocorrência de 400 ataques desde 1900 em todo o mundo.

O tigre e o cabeça-chata, lembra José Vitor, são as espécies responsáveis pelos ataques a banhistas e surfistas na costa de Pernambuco. Por isso, mesmo sendo conhecidos mais de 500 tipos desse tipo de peixe em todo o mundo, apenas esses dois entram no estudo.

Os tubarões empregados na pesquisa foram capturados entre 2006 e 2008, pelo barco de pesquisa Sinuelo, do Departamento de Engenharia de Pesca da universidade, numa área de aproximadamente 20 quilômetros quadrados ao largo da costa de Olinda e Recife.

Os peixes são levados para a universidade e servem não apenas à pesquisa da flora microbiana da boca, mas para a análise de outros dados. “Usamos uma técnica conhecida como suabe para coletar amostras da cavidade bucal e em seguida analisamos em laboratório.”

A equipe de José Vitor isolou 81 bactérias de 14 espécies. Duas delas, segundo os resultados, são resistentes aos antibióticos ministrados no Hospital da Restauração (HR), referência no atendimento das vítimas no Estado. “Não que os antibióticos usados nos sobreviventes sejam ineficazes. Assim, as lesões não teriam cicatrizado. Mas se eles tomarem drogas mais específicas poderão, por exemplo, abreviar o tempo de internação”, esclarece.

(Jornal do Commercio).