Ceclin
nov 29, 2010 1 Comentário


A Novembrada e a Abrilada conservadora

por Marco Albertim *


De conteúdo anti-lusitano, a novembrada também foi uma revolta de militares. Os protestos se davam até contra casamentos entre portugueses e brasileiras. Uma trova famosa, à época, dava conta da queixa contra os consórcios
:


Marinheiro pé-de-chumbo

Calcanhar de frigideira

Quem te deu a ousadia
De casar com brasileira


O foco dos protestos eram os altos postos ocupados por portugueses na administração provincial, bem como o monopólio do comércio pelos marinheiros. O movimento estourou em 15 de novembro de 1831. Populares e militares, liderados pelo capitão Antônio Afonso Vieira e pelo segundo-tenente João Machado Magalhães, ocuparam a Fortaleza das Cinco Pontas. As tropas do governo, reduzidas devido às prisões da Setembrada, cercaram os rebeldes. O governador, Francisco Pais de Andrade, dera a ordem e se refugiara na Fortaleza do Brum.


As reivindicações eram: expulsão de funcionários civis e militares que defendiam o absolutismo (restauradores) e dos portugueses solteiros; fim das sociedades estrangeiras; proibição do desembarque de portugueses; desarmamento dos lusitanos; demissão e expulsão do coronel Bento

José Lins e do tenente-coronel Lourenço Torres Galindo, capitão-mor do Recife. A Sociedade Federal, encabeçada pelo brigadeiro Francisco de Paula e Vasconcelos, tentou contemporizar com os revoltos; não surtiu efeito. A própria Sociedade era objeto do ódio dos pernambucanos sediciosos. Mesmo acenando com o atendimento de algumas reivindicações, o governo retoma a situação tirando proveito da falta de ofensiva dos rebeldes. O coronel comandante das armas, Francisco Jacinto Pereira, chefiou a reação. A Novembrada durou quatro dias.

A reação mais conservadora estava por vir. A Abrilada deu-se no ano seguinte. Tão restauradores que era formada pelos chamados Colunas – Sociedade Coluna do Trono e do Altar. Exigia a volta do imperador. Seu epicentro foi o Recife e ramificou-se por Vitória de Santo Antão, Bonito, Bezerros e Caruaru. Em meados de abril, à frente o coronel Francisco José Martins e o sargento-mor José Gabriel de Moraes Meyer, foi ocupada a Fortaleza do Brum. Quinze metros de pranchas da ponte entre os bairros do Recife e Santo Antônio foram arrancados, para garantir o isolamento dos restauradores. O povo reagiu de pronto, lembrando-se dos saques e das mortes nas revoltas anteriores.


Pais de Andrade contou com o apoio dos alunos do Curso Jurídico de Olinda, de voluntários e da guarnição da escuna Rio da Prata. Em que pese ser o governador um conservador a seu modo, os pernambucanos foram movidos pela experiência que lhes dera o instinto tático.


Coube ao coronel José Joaquim Coelho chefiar o combate. A Abrilada resistiu por quarenta horas, com pouca iniciativa de luta. Muitos tentaram escapar da prisão atirando-se no rio Capibaribe, buscando abrigo nas embarcações diversas, outros correram na direção do convento da Madre de Deus, mas mortos no caminho.


Torres Galindo, o mesmo que combatera a Novembrada, agia em Vitória de Santo Antão, Bonito, Una e Barra Grande, defendendo a restauração de Pedro I ao trono. Foi cercado e preso pelo regencial Lourenço Bezerra Cavalcanti; e encarcerado por ordem de Pais de Andrade.



por Marco Albertin,

* Menção honrosa dos Prêmios Literários da Cidade do Recife, com o livro Um presente para o papa e outros contos. Integra as antologias de contos Recife conta o Natal e Panorâmica do conto em PE.