Ceclin
nov 28, 2008 4 Comentários


A importância das prévias

Publicado em 28.11.2008
por Cristovam Buarque

São poucos os debates entre candidatos nos Estados Unidos, mas os debates entre pré-candidatos tomam dois anos. Nos últimos dois anos surgiu o futuro presidente Obama. Ele não era membro da burocracia do partido, não era candidato da máquina do partido, não era sequer muito conhecido, nem tinha alto índice nas pesquisas. Dois anos de debates consolidaram a idéia de que, como ele dizia na campanha, “era possível”. Isso, nós no Brasil não temos. Porque os debates ficam fechados e não acontecem nem dentro dos muitos partidos, são blocos de partidos se juntando para escolher um só candidato, roubando do eleitor a possibilidade de escolher entre as opções.
Há duas semanas, o senador Pedro Simon cobrou a necessidade do envolvimento de todos os políticos no debate sobre o futuro presidente. Ele está certo: já é hora de começarmos a avaliar o governo Lula e definir aonde queremos ir, que presidente queremos, que comando, que orientação, que projeto alternativo para o Brasil buscamos. Se fizermos uma análise, mesmo faltando dois anos dos oito do presidente Lula, poderemos afirmar que o Brasil avançou, como tem avançado nesses 20 anos de democracia.
Do ponto de vista político, é possível dizer que o presidente Lula conseguiu uma imensa aglutinação da sociedade brasileira com sua palavra, seu prestígio, sua popularidade das mais altas que já teve um presidente no Brasil. Entretanto, esse prestígio trouxe um retrocesso na consciência da população brasileira. De tanto aglutinar, de tanto incorporar, de tanto juntar o quebra-cabeça dos diversos grupos que compõem a sociedade brasileira, o presidente acomodou os sindicatos, silenciou os intelectuais, paralisou os estudantes e praticamente anulou a oposição, que de vez em quando critica, mas sem se opor nem propor alternativas. Ele conseguiu tanta aglutinação que provocou um retrocesso na consciência brasileira.
Do ponto de vista social, não há dúvida de que houve avanço nos programas iniciados deste o tempo do presidente Sarney – distribuição de leite, Bolsa-Alimentação e Vale-Alimentação, Vale-Transporte. Pode-se dizer que este é um governo altamente generoso para com a parcela mais pobre da sociedade. A generosidade não deixa de ser um avanço, se comparada com o tradicional egoísmo da elite brasileira, mas é um avanço tímido, limitado, numa sociedade que precisa de um salto muito maior. Sobretudo vindo de um governo do qual se esperava uma revolução.
Já com relação à economia, o presidente Lula manteve a responsabilidade no uso dos recursos, continuando a política econômica que vem desde o governo do presidente Itamar. Esse senso de responsabilidade precisa ser elogiado. Na soma, Lula é um dos melhores presidentes do Brasil, sem dúvida, mas não o primeiro de um novo ciclo histórico, como foi Mandela para a África do Sul, como esperávamos.
O próximo presidente não pode fazer um retrocesso, tem que ir além. Deve liderar-nos até a derrubada dos dois muros que atrapalham a formação da civilização brasileira: o muro da desigualdade, que nos divide aqui dentro, e o muro do atraso, que nos separa dos outros países civilizados.
A escolha do caminho, o salto de que precisamos, exige liderança nova e inspiração. Para isso, devemos levar adiante o que o senador Pedro Simon propôs: um longo debate para a escolha dos candidatos, com a participação dos eleitos desde o primeiro momento. Para que esta não seja a simples ratificação da escolha feita pelas máquinas partidárias, pelos institutos de pesquisas e pela mídia.
» Cristovam Buarque
é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF