Ceclin
set 12, 2017 0 Comentário


A história dos parlamentares comunistas na Alepe

Luciano Siqueira PCdoB

da Alepe

A notícia da Revolução Russa ocupa apenas um canto de página na edição do Diario de Pernambuco de nove de novembro de 1917. Os jornalistas da época não imaginariam que, cem anos depois, a chegada ao poder dos comunistas na terra dos czares continuaria a influenciar a política em todo o mundo, inclusive em Pernambuco.

Na primeira eleição para a Alepe que disputaram, em 1946, os comunistas conquistaram nove cadeiras. O mais votado entre eles foi David Capistrano, um cearense que havia lutado na Guerra Civil Espanhola e na resistência contra os nazistas na França. De acordo com o jornalista Marcelo Mário de Melo, autor da biografia do ex-parlamentar publicada pela Alepe, a atuação dos comunistas nessa época foi marcada pela luta em defesa da democracia e dos direitos trabalhistas. “Você tinha saído de uma ditadura, não é? Então a participação da bancada comunista foi muito no sentido de respeito às liberdades democráticas. Por exemplo: o hábito de o delegado mandar prender em casa, invadir sindicato, invadir jornal. A exigência de ter a ordem judicial. Isso aí fazia uma diferença muito grande naquela época.”

Além de David Capistrano, o Partido Comunista elegeu operários, profissionais liberais, comerciantes e até uma dona de casa: Adalgisa Cavalcanti, primeira mulher a ocupar uma cadeira no parlamento estadual. Mas a atuação dos comunistas na Alepe teve duração curta. Em 1947, o registro do partido foi cancelado.

A perseguição aos comunistas se acentuou com o golpe militar em 1964. Mas apesar do cerco, eles continuaram a atuar em organizações clandestinas ou no interior de outros partidos. O vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira, hoje filiado do PC do B, foi eleito para a Alepe em 1982 pelo PMDB, o único partido de oposição permitido na época. Mesmo em outra legenda, ele lembra que o programa do partido era a base do mandato. “Procurei exercê-lo ao modo dos parlamentares comunistas, ou seja, com um pé na Assembleia e outro na rua, vale dizer, participando ativamente dos debates parlamentares e na construção das proposições no âmbito parlamentar examinando cada assunto, por mais particular que fosse, à luz do programa partidário e da linha política do meu partido.”

Com o retorno dos partidos, os comunistas, agora dispersos em várias legendas, voltaram a disputar cadeiras da Alepe. Nunca conseguiram repetir o resultado de 1946. Nos anos noventa e dois mil, passaram pela Alepe, pelo PCB, Byron Sarinho, e, pelo PC do B, Luciana Santos, Nelson Pereira e Luciano Moura. Em dois mil e dez, Luciano Siqueira volta à Alepe, agora pelo PC do B.

Na última eleição, em dois mil e catorze, nenhum partido comunista conseguiu representação na Alepe. Mas eles continuam em atividade. Para Luciana Santos, agora deputada federal por Pernambuco e presidente nacional do PC do B, a prioridade atual dos comunistas é barrar as reformas do Governo Temer. “As principais tarefas de um comunista na atualidade é resistir contra uma agenda que está sendo imposta ao País. Imposta porque existe um programa de governo em curso que não foi um programa que tenha passado por uma eleição.”

E cem anos depois da Revolução Russa, os ideais de Karl Marx e companhia continuam a atrair seguidores nas universidades, sindicatos e movimentos sociais. Para o pesquisador Túlio Velho Barreto, isso se deve à força da mensagem comunista. “A utopia continua. Uma utopia pela igualdade, uma utopia pelo respeito ao ser humano, a um tratamento igualitário entre as pessoas, o fim dessa desigualdade entre as pessoas estabelecidas a partir das classes sociais. Quer dizer, esse é um apelo muito forte.”

 LEIA TAMBEM:

– Documentário que resgata histórias da Ditadura no Recife tem exibição gratuita no São Luiz