Ceclin
jul 03, 2009 0 Comentário


À espera das casas prometidas

Publicado em 03.07.2009

Há mais de quatro anos, 1.839 famílias de Jaboatão, Moreno e Vitória de Santo Antão lutam pelo direito a uma habitação digna

Há quatro anos e 31 dias, 1.839 famílias aguardam, pacientemente, para voltar a ter um canto próprio. Um lugar onde possam retomar a vida e criar os filhos com um mínimo de dignidade. Essa é a realidade dos desabrigados das enchentes de 2005, uma das maiores tragédias provocadas pelas chuvas em Pernambuco.

As quase 2 mil famílias são apenas a parcela mais necessitada das vítimas, residentes nas cidades de Jaboatão dos Guararapes e Moreno, na Região Metropolitana do Recife, e Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata. Isso porque, na época, as águas destruíram os sonhos de 31 mil pessoas no Estado, provocando 29 mortes e levando 23 municípios a decretarem situação de emergência.
Na longa espera, a miséria, o desemprego e a violência predominam. Quem não recebe pelo menos o auxílio-moradia, cujos valores variam de R$ 60 a R$ 100, vive “amontoado”, como eles definem, na casa de parentes. Seis meses atrás, famílias inteiras ainda permaneciam instaladas em abrigos disponibilizados pelos municípios, geralmente galpões improvisados, sem qualquer tipo de infraestrutura. Das três cidades mais atingidas pelas enchentes em 2005, a situação mais crítica é a de Jaboatão. O município teve 10 mil desabrigados, mas apenas 1.055 famílias vão ter direito a receber novas casas do poder público.
Até agora, entretanto, nada foi feito. “A Prefeitura de Jaboatão enrolou esses anos todos e somente no mês passado é que acertou o início das obras, que ainda não começaram. Mesmo assim, apenas 600 casas serão erguidas”, denuncia Cristina Cavalcanti, 41 anos, uma das desabrigadas que continua residindo numa casa alugada por R$ 50 a mais do que o valor que recebe do auxílio-moradia. O imóvel fica às margens do Rio Jaboatão, no bairro de Moenda de Bronze, um dos mais devastados pelas chuvas.
Quem conseguiu uma casa ainda não teve sossego porque as condições de moradia são péssimas. Nos dois conjuntos habitacionais, construídos até agora, falta esgotamento sanitário, a água só chega de 15 em 15 dias e, como não há acesso viário, o transporte público não passa.
Em Moreno, onde 326 das 406 famílias desabrigadas esperam pelo novo lar – uma casa com quarto, sala-cozinha e banheiro -, a área onde o habitacional está sendo construído, no Alto Santo Antônio, foi apelidada de quilombo. O nome oficial é Vila Holandesa, porque 120 casas foram erguidas pelo governo holandês para desabrigados de outras chuvas.
“Nos deram algumas casas, mas fomos esquecidos. Vivemos isolados de tudo. Não há posto médico, policial ou escola. Nem mesmo um acesso viário. Estamos num alto e temos que percorrer dois quilômetros para fazer as coisas. Só mototáxi chega, mas custa R$ 1,50 cada corrida. E, quando chove, nenhum veículo sobe”, reclama a biscateira Alda Batista, 41, encontrada pela reportagem, penando para chegar à comunidade com seis dos seus 11 filhos.

Em Vitória de Santo Antão o problema se repete, mas com uma agravante. Além da falta de infraestrutura, os desabrigados estão no meio de uma briga política que chegou na Justiça. Os 458 imóveis previstos para atender o mesmo número de famílias ficaram quase prontos no fim do ano passado, só que a grande maioria não chegou a ser ocupado pelos desabrigados das enchentes de 2005. Foram invadidos por pessoas também necessitadas, mas que não tinham direito a eles.

Gente como Jéssica Barreto, 19, que passava dificuldades na casa do pai e, devagar, foi equipando a casa invadida para morar com a filha de 3 anos.
Das 458 famílias invasoras, menos de 85 fazem parte do cadastro de 2005.
Mãe de cinco filhos e esperando o sexto, a dona de casa Janaína Maria Sales, 28, é uma das poucas pessoas que têm direito à nova residência. Mesmo assim, diante do clima de terror que tomou conta do lugar, ela diz não ter paz. “Eu esperei quase quatro anos e quando soube que o povo estava invadindo as casas não pensei duas vezes: me instalei e estou tentando retomar minha vida.”
A também dona de casa Maria de Lurdes da Silva, 54, não teve a mesma sorte. Continua vivendo às margens do Rio Tapacurá, no bairro de Doutor Bida, e se assusta sempre que o nível do rio sobe. “Fomos enganados. Não quisemos ser desonestos, optamos por esperar o governo concluir as casas e agora ficamos sem nada. O jeito é acreditar na Justiça”, diz, consciente de que só lhe restaram a fé e a paciência para se agarrar.

MATÉRIAS VINCULADAS

Sonho da nova moradia ainda distante