Ceclin
dez 22, 2008 3 Comentários


A arte de agradar: demagogos e bajuladores

Há dois seres bem presentes na política “moderna”, falamos dos demagogos e dos bajuladores. O primeiro geralmente de frente a meia dúzia de pessoas discursa como se fossem salvadores da pátria. Isso é presente em todos os livros de história, basta lembrarmos do grito de Independência ou Morte proferido por D. Pedro I. O segundo ser, é ainda mais freqüente. Por interesses pessoais, procuram nunca discordar de seu líder. Há 50 mil anos, se o adulador, por exemplo, beijasse as botas de Luis XV, poderia até mesmo ser dispensado de lutar nas Cruzadas.

Os bajuladores são vistos de forma pejorativa em todos os lugares do planeta, por exemplo. Bajular no latin vem de bajulare, baiolore, “carregar nas costas”, em Cuba ou no México, no espanhol, hablan: chupa-media, já na frança parlan: leche-botte, que significa lambe-bota. No Brasil, bajulador pode ser corta-jaca, em Alagoas, baba-ovo em Pernambuco e enxuga-gelo no Rio Grande do Norte. Hilário, não?
Mas, voltando… de fato… democracia é você poder ter opinião sem ter que necessariamente seguir vozes que tenha maior peso que a sua. Dessa forma pensavam os gregos antigos nos séculos 4 e 5 a.C. Foi na época que aconteceu a grande inovação política da Antiguidade clássica, ou talvez dos últimos tempos. Eles não gostavam quando as pessoas se colocavam mais inferiores ou mesmo mais superiores que as outras, e por isso abominavam a bajulação. Viam isso, como uma forma de auto-humilhação sendo considerada profundamente antidemocrática.
A palavra “democracia” vem do grego demos, que significa povo, e do verbo Kratos, que significa “governar”. Portanto, governo do povo. As pessoas então são soberanas. Um governo do povo, para o povo e pelo povo. Porém em Atenas, a demagogia consistia em políticos ambiciosos que dizia que o povo assim como eles próprios, eram nobres e por isso nunca estavam errados – assim considerados “a soma de toda bondade humana.” O filósofo Isócrates opunha-se aos oradores que falavam apenas para agradar sua audiência, e não em prol de seu pensamento. Soa familiar não é? Para os Gregos Antigos, esta demagogia só gerava corrosão na democracia.
Da mesma forma que o demagogo prejudica a população, a figura do “baba-ovo” prejudica o líder. Nunca nem a população nem o líder sabem se aquilo que está sendo exposto é ou não verdade de fato. Porém o que acontece é que a população aplaude mais o político demagogo e de outro lado o líder não consegue viver, se não, cercado por bajuladores. Basta olhar a maioria dos órgãos públicos cheios de bajuladores com mais capacidade de “agrado” que técnico.

Ambos, o bajulador e o demagago, têm muito em comum, principalmente a vontade de ascender hierarquicamente com pouco esforço produtivo, esquece, no entanto, que na maioria das vezes isso acontece, mas é passageiro. Termino com uma frase de Plutarco, que muito estudou sobre a arte de bajular: “o bajulador nasce livre, mas opta por se tornar um ser escravo”.

Por Helder Sóstenes,
Diretor do Correio do Interior.