Ceclin
ago 11, 2010 0 Comentário


“O eleitorado brasileiro converge para o centro"

Publicado em 08.08.2010

Pesquisador do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), órgão da Presidência da República, Paulo Tafner prevê que o Brasil passará por mudança eleitoral nas próximas décadas em decorrência do envelhecimento e morte de uma geração de analfabetos, a qual será substituída por jovens alfabetizados, e muito mais críticos na hora de votar e avaliar o governo. “O Brasil atingiu o ápice do seu eleitorado”, previu durante o 7º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), no Recife.
A seguir, leia trechos da entrevista concedida a Paulo Sérgio Scarpa.

JC – Qual será o futuro do eleitorado brasileiro?
PAULO TAFNER – O eleitorado vai aumentar em quantidade, mas as participações relativas vão se modificar bastante. Os jovens terão seu número reduzido drasticamente em aproximadamente em 50% nos próximos 30, 40 anos. Isso é, o principal grupo de eleitores será o mais maduro, mais vivido e nessa medida mais conservador. A médio prazo, o Brasil deve se encaminhar para políticas mais liberais, mais centradas, em valores conservadores e de reformas de estrutura no sentido de integrar o País ao resto do mundo, não ao contrário.

JC – Isso significaria um voto mais crítico em relação ao voto de hoje?

TAFNER – Acho que tende a mudar o perfil do eleitor. Daqui a uma década e meia, não teremos praticamente eleitores analfabetos, a quantidade de eleitores pobres será muito menor do que hoje, e o número de eleitores que dependam de transferências do governo, à exceção dos recursos da Previdência, tenderá também a ser menor. Então isso fará com que o eleitorado seja menos dependente de ações do Estado, e nessa medida talvez mais crítico ao próprio Estado tendo em vista que algumas das políticas públicas são especialmente ineficientes, como a saúde e a educação no Brasil.

JC – Essa mudança dependerá de qual fator?

TAFNER – Há uma mudança demográfica em curso no País que não há nada que um presidente da República possa fazer para mudar isso. Por outro lado, há uma dinâmica econômica que é pouca influenciada pelo governo. O setor privado vem andando bem, vem investindo, aplicando na capacitação de sua mão de obra, a economia mundial vem crescendo. E os efeitos de uma ação pública são mais reduzidos. Então, essas mudanças ocorrerão independentemente da vontade de um governo. Isso fará com que o eleitor daqui a 20 anos tenha uma outra perspectiva ao escolher o seu governante.

JC – Isso implicaria em uma mudança partidária, para que os partidos acompanhem a sociedade?

TAFNER – A política partidária responde ao eleitor mediano, se ele caminha mais para o centro, tenderá a ser conformar uma composição partidária no centro, os extremos serão expelidos. O mesmo acontecerá se mais a direita ou à esquerda. Mas há bastante tempo o eleitorado brasileiro está se convergindo para um posicionamento de centro, queremos governantes que tenham empenho e atitude, mas que tenham sobretudo uma visão de mundo e uma implementação de políticas numa ótica de centro. Ou seja, eficiência, gasto público para os mais pobres e infraestrutura para que a economia possa crescer.
(Jornal do Commercio).