EM VITÓRIA Cientista jogadora americana analisa as dificuldades do futebol feminino no Brasil
Hildo Neto, Jornal do Commercio
Num dia chuvoso, aos poucos, as jogadoras vão chegando, de bicicleta, moto, ônibus e até a pé. Mesmo sem o número mínimo de atletas, o treinamento começa num campo de areia e sem a iluminação adequada, bastante distante dos holofotes e do glamour destinados aos grandes times masculinos. Essa é a realidade da maioria das equipes femininas de futebol no Brasil. As atletas parecem que são invisíveis para o grande público. Ao contrário do vôlei, basquete, tênis e tantos outros esportes, em que os gêneros dividem os olhares quase da mesma forma, o futebol feminino ainda não engrenou no gosto popular e da mídia.
Apesar da leve valorização, as mulheres ainda jogam longe das câmeras, do público e em estádios precários. A falta de retorno financeiro afugenta os grandes clubes do futebol feminino. Considerada a melhor equipe da América do Sul, o Santos acabou com as Sereias da Vila alegando falta de dinheiro. Com este cenário, a norte-americana Caitlin Fisher, de 29 anos, graduada em antropologia pela Universidade de Harvard e mestre em Desenvolvimento, Gênero e Globalização pela London School of Economics and Political Science, desenvolve o projeto acadêmico multimídia Guerreiras.
A gente está tentando aumentar as vozes das jogadores, que até hoje são invisíveis. Criamos um espaço para que elas sejam ouvidas e, principalmente, compartilhem as experiências dentro e fora de campo. O futebol não é só um esporte, dá aula para a vida, comenta Fisher, que joga no Acadêmica Vitória, no interior de Pernambuco. Antes de chegar a Vitória de Santo Antão, ela já jogou nos Estados Unidos e na Suécia. O projeto explora a forma como as jogadores lidam com o preconceito, a falta de apoio e a pouca valorização do futebol feminino no Brasil.
Será que a gente tem de fazer um calendário peladas para vender o futebol feminino? A gente sempre fala do esporte no contexto do masculino. Não dá para comparar. Temos de mudar esse paradigma, afirma. Um dos objetivos do Guerreiras Project é abrir a cabeça das pessoas para que elas interpretem o futebol feminino de uma outra forma. O nosso futebol é parecido com o da época de Pelé, só que mais lento e com menos explosão. É preciso enxergar com outros olhos, analisa.
O projeto foi lançado em 2011, na Copa do Mundo feminina da Alemanha. Depois foi apresentado em Londres, Trinidad e Tobago e Gana. No Brasil, está sendo financiado por uma entidade sem fins lucrativos até junho. Em Vitória de Santo Antão, Fisher conta com o apoio da também americana Adrienne Grunwald, que faz os registros multimídia do estudo.
Brasileiras têm ginga. Falta apoio
Com a experiência de quem estuda o futebol feminino brasileiro e já viajou por várias partes do mundo, a cientista jogadora Caitlin Fisher é categórica em afirma que não vai demorar muito para o Brasil conquistar uma Copa do Mundo e uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Na opinião dela, as brasileiras têm habilidade e ginga superior às atletas de outros países.
Quando as meninas daqui tiverem mais apoio, com certeza vão ganhar uma Copa do Mundo e se estabilizar, porque elas têm qualidade, só precisam de alguém que acredite nelas, afirma. Fisher garante que a situação do futebol feminino no Brasil melhorou desde que jogou aqui pela primeira vez em 2004, mas que ainda há muito a evoluir. Na época que eu estava no Santos, nós já chegamos a treinar na rua, com os carros passando, porque não tinha lugar. A Marta abriu muitas portas e hoje as equipes estão mais fortes, analisa.
Uma das alternativas apontadas por Fisher para o fortalecimento do futebol feminino é que ex-jogadoras ocupem cargos nos clubes, federações e órgãos governamentais. Elas conhecem a realidade e tem experiência para contribuir com o esporte. Tem atletas que jogaram comigo que hoje são motoristas e trabalham em indústrias, afirma.
Apesar do otimismo, a meio-campista analisa com cautela a atual conjuntura do futebol feminino. Foi uma surpresa para todo mundo o fim da Liga Americana e do Santos. É uma desmotivação para o esporte feminino, não só para o futebol. Porém, o Brasil tem potencial para superar isso e crescer, finaliza Fisher.
CONCURSO
O projeto Guerreiras está participando de uma eleição em que são escolhidas as 50 iniciativas ao redor do mundo que mais contribuem para a igualdade de gênero e a valorização das mulheres. O resultado será anunciado no Dia Internacional da Mulher, no próximo 8 de março.
Como é um projeto multimídia, o Guerreiras tem um blog para difundir o estudo http://guerreirasproject.wordpress.com.
Jogadoras querem atividade o ano todo
A falta de um calendário permanente do futebol feminino está dando dor de cabeça para as jogadores e dirigentes. Com a antecipação da Copa do Brasil para o primeiro semestre, os clubes ainda não sabem o que farão na segunda metade do ano, correndo o risco de alguns paralisarem as atividades e só retornarem em 2013. A ausência de uma competição que dure o ano inteiro é uma das principais carência da modalidade.
A gente vai procurar alternativas para não parar. Quem sabe realizar uma Copa do Nordeste. Esperamos que a CBF também aponte uma alternativa para o futebol feminino não degringolar, comenta o presidente do Vitória, Paulo Roberto Arruda. Caso o Tricolor das Tabocas chegue novamente à final da Copa do Brasil, o último jogo oficial será no dia 9 de junho.
A única competição oficial no segundo semestre é a Copa Libertadores e o representante do Brasil já está definido. Será o Foz Cataratas-PR, que foi o campeão da Copa do Brasil no ano passado. No entanto, como Pernambuco é candidato a receber a competição continental, o Tricolor das Tabocas pode ser indicado como representante do País. A Conmebol deve divulgar até julho onde será realizada a competição, que no ano passado ocorreu em São José dos Campos.
Na candidatura de Pernambuco, as cidades-sedes seriam Recife, Vitória de Santo Antão e Caruaru. O que pesa contra o Estado é o fato das três edições da Libertadores terem sido disputadas no Brasil. No entanto, a Federação Pernambucana de Futebol e o Vitória estão otimistas quanto a realização do torneio.
Apesar de apontar algumas alternativas como amistosos e jogos universitários será difícil para o Vitória manter as jogadoras no segundo semestre sem uma competição oficial. Com um alto investimento, que apesar de não ser oficial deve girar em torno de R$ 500 mil por ano, o Tricolor das Tabocas terá de se virar para não fechar a equipe.
O Vitória mantém 32 jogadoras com apartamentos, transporte e alimentação, além do salário e da comissão técnica.