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out 31, 2008 2 Comentários


Saudades de Pelópidas

Publicado em 31.10.2008

por Cristovam Buarque

No último domingo, terminou uma eleição e começou a próxima. Terminou a escolha dos líderes municipais, e começou a escolha dos líderes nacionais. Esperemos que a próxima eleição seja mais inspirada e inspiradora do que esta.
Observamos 379.395 pessoas disputarem cargos de prefeito e vereador em 5.563 cidades brasileiras, concentradas em temas locais, como se todos os candidatos fossem iguais do ponto de vista das idéias, da visão de mundo, das propostas de longo prazo para o País. Esta foi uma eleição completamente diferente das passadas, quando além dos temas administrativos locais, os candidatos mostravam compromisso com o Brasil e com seu futuro.
Símbolo das eleições passadas é a figura de Pelópidas Silveira. Candidato a prefeito de Recife nos ano 50, ele não só deixou claro seu projeto de modernização urbana, mas também defendeu uma alternativa para o futuro de Pernambuco, do Brasil e do mundo. Representava a modernidade social, o desenvolvimentismo, a industrialização, o fim do poder dos coronéis, a abolição do analfabetismo, as reformas de base, até mesmo o socialismo.
Além de ter uma proposta administrativa, o engenheiro Pelópidas era um candidato de esquerda. Havia então uma visão – alguns chamavam de ideologia – em debate, e os partidos se organizavam com base nelas. Isso enriquecia o debate eleitoral em cada cidade.
Temos saudades de Pelópidas, de sua figura humana, seu caráter moral, sua liderança política, seu carisma radiante. Saudades do que ele simbolizava como político: o tempo de alternativas para a construção do País e da humanidade.
Sentimos falta não somente de Pelópidas, mas também de idéias, de partidos. Estamos num tempo sem idéias novas, nem propostas alternativas. E nunca foi tão necessário um debate sobre os caminhos futuros do Brasil e da humanidade.
Diante de nós temos uma catástrofe ambiental, originada nas cidades, mas deixada de lado em todo o debate das eleições municipais de 2008.
Temos a tragédia da desigualdade social, cada vez maior e mais visível nas cidades, mas também relegada, como se não importasse para a escolha de prefeitos e vereadores. O trânsito é tratado como um problema de obras e não como a conseqüência de um modelo de desenvolvimento.
Se as eleições de 2008 tivessem acontecido há 30 anos, cada candidato debateria sua proposta para o enfretamento do problema do meio ambiente, informando sua posição ideológica sobre a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento sustentável, e apresentando medidas para que sua cidade fosse um exemplo de sustentabilidade.
O mesmo ocorreria no que se refere ao enfrentamento do problema da desigualdade social. Fosse no passado, os candidatos defenderiam reformas muito mais profundas do que a simples aceitação dos programas de assistência social. Defenderia um novo modelo de produção, mais voltado para os bens públicos, em vez da economia prisioneira do consumo voraz de bens privados.
Nessa linha, o trânsito das cidades seria debatido não somente na perspectiva de novas obras civis, para o desafogamento, mas também de uma reforma radical do transporte público.
Mas não vimos nada disso. O debate foi vazio, imediatista, simplista, definido por marqueteiros, mais para enganar o eleitor no presente do que para construir um futuro novo para as cidades e para o Brasil.

Nesta eleição, tive saudades de Pelópidas e do que ele representava: um tempo em que os candidatos a prefeito e a vereador eram também candidatos a líderes de um novo tempo, construtores de um novo mundo.

» Cristovam Buarque
é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF