• Ceclin
jul 19, 2018 0 Comentário


Reforma de altar em Escada gera polêmica

Reforma de altar em Escada gera polêmica

Devotos exigem que o estilo Barroco, com a presença do movimento artístico Rococó, do projeto original, datado de 1874, seja preservado Foto: Brenda Alcântara

Fiéis alegam que projeto de restauro do altar descaracterizará a arquitetura original secular da igreja de Escada, na Mata Sul

Por Maiara Melo, da Folha de Pernambuco

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Escada tem sua história entrelaçada com a da cidade de mesmo nome, distante 60 quilômetros do Recife, na Mata Sul pernambucana. A sua estrutura começou a ser erguida quando a região ainda era considerada uma aldeia, a partir da mão de obra indígena e de colonos que migraram para o Interior de Pernambuco. Sob a supervisão da Congregação do Oratório, vinda de Portugal, foi fundada em 1874, sendo o ponto central de memoráveis acontecimentos do município. Atualmente, a paróquia centenária é palco de uma grande polêmica em torno da reforma do altar, que tem dividido opiniões e mudado a rotina dos fiéis.

Monsenhor Josivaldo, pároco à frente da igreja desde 2016, explicou que as adequações são para melhorar o piso do presbitério, que estava deteriorado por ação de cupins e umidade. “Levei a demanda ao conselho da pastoral, que é formado por membros dos grupos pastorais, movimentos das paroquias e membros da comunidade. Todos gostaram da ideia”, explica.

Um arquiteto sacro foi chamado para fazer o projeto. “O conselho aprovou por unanimidade. A partir daí, nós começamos a arrecadar fundos.” De acordo com os Livros de Tombo da paróquia, espécie de diário de padres que já estiveram à frente do local, onde registram os principais acontecimentos do templo, o piso passou por uma reforma em 1981. “À época, o padre Geraldo, já falecido, fez uma readaptação litúrgica, colocando no lugar do piso original cerâmicas do tipo Brennand”, diz Edson Junior, membro do conselho paroquial. “Também trouxe uma eça [estrado] funerária, que foi posta apenas para fins decorativos no local da mesa de celebração. Com os restos dessa mesa, ele construiu um ambão de madeira [púlpito] para celebração”, continua.

Edson diz ainda que, posteriormente, foi colocado um tablado de madeira nos degraus do altar. O projeto idealizado pela igreja, e iniciado na última terça (17/7), está orçado em R$ 80 mil, com uma parte dessa verba já garantida por meio de doações. A proposta é substituir o piso e os móveis por peças de granito e mármore.

“O ambão, a eça e as cadeiras ficarão expostas em outra parte da igreja. Tudo isso para adequar o altar às normas da Santa Sé, de 1917, que diz, por exemplo, que a mesa de celebração tem que ser confeccionada para tal fim, de um único bloco de pedra polida, natural e fixa. A eça, que foi feita para receber cadáveres, tem até rodinhas. Ela não serve para o altar”, ressalta Edson.

É aí que está o problema para alguns fiéis, que acreditam que a obra irá descaracterizar a igreja secular construída em estilo Barroco, com a presença do movimento artístico Rococó. “Todo padre que chega, muda algo. Já removeram os vitrais, já alteraram o piso, mudaram a cor. Já destruíram o nosso salão paroquial, que tinha cerâmicas portuguesas”, lamenta a advogada Piedade Buarque, 55 anos. O antigo salão paroquial hoje é um banco. “Casei nessa igreja, comemorei no salão que nem existe mais. É muito triste”, acrescenta a empresária Ana Rita, 55.

Elas fazem parte do Instituto Histórico, Arquitetônico, Arqueológico e Geográfico (IHAAG) de Escada, idealizado para tentar resgatar e cuidar das estruturas que contam a história local. “Não somos contra a obra, porque o altar precisava de reparos. Mas pedimos um tempo ao padre para que pudéssemos ver um projeto que se adequasse ao estilo da igreja, que nada tem a ver com mármore e granito. Eles são modernos”, aponta o empresário José Mauro, 63, membro do IHAAG.

Ele explica que pediram ajuda à Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). “Fomos pedir uma opinião para esse novo projeto, mais viável. Mas não esperaram e começaram a obra. Só queremos o diálogo, porque se antes nós não tivemos a oportunidade de interferir e preservar a igreja, hoje nós temos e vamos até o fim.”