• Ceclin
ago 20, 2018 0 Comentário


Museu de Vitória de Santo Antão abre documentário do Jornal do Commercio

Famílias moradoras na cidade doaram peças ao museu. Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

Famílias moradoras na cidade doaram peças ao museu. Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

Século 20 já virou peça de museu em Vitória de Santo Antão

A partir do domingo (19/08), até a próxima quinta-feira (23), o JC publica uma série de cinco reportagens com centros culturais que preservam a história de municípios localizados no Grande Recife e na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Conheça, na primeira publicação, o Museu do Instituto Histórico de Vitória de Santo Antão, em funcionamento há mais de 60 anos 

por Cleide Alves, do Jornal do Commercio

Houve uma época em que ferro de engomar aquecido com brasa, máquina de costura manual, quartinha de barro para armazenar água e calçadeira feita com chifre de boi faziam parte do dia a dia das casas pernambucanas. Ultrapassadas pelas novas tecnologias, as peças do tempo das vovós do século 20 deixaram salas, quartos e cozinhas para representar a história recente em museus.

No município de Vitória de Santo Antão, situado na Zona da Mata do Estado, a 47 quilômetros do Recife, objetos que caíram em desuso nas moradias são exibidos no Museu do Instituto Histórico. Fogareiros de ferro onde eram preparados os almoços, máquinas que moíam milho para as canjicas das festas juninas e candeeiros que ardiam nas salas de jantar esperam os visitantes numa casa antiga no Centro da cidade.

O museu, criado nos primeiros anos da década de 1950, ocupa o imóvel de número 187 da Rua Imperial, conhecida como Rua do Meio. “É um espaço idealizado por Djalma Raposo para preservar a memória, a história e a cultura do município. Ele era promotor em Vitória e morava em Goiana (atualmente município do Grande Recife)”, diz a professora de história e sócia do instituto, Maria de Fátima dos Santos Alves.

“Começamos a formar o acervo com peças sacras doadas pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e pela Matriz de Santo Antão. Depois recebemos objetos de moradores, de pessoas que gostam da cidade e de famílias de antigos proprietários de engenhos de açúcar”, afirma o professor Iran Maciel, vice-presidente do Instituto Histórico de Vitória de Santo Antão.

A casa transformada em museu hospedou dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina de 18 a 20 de dezembro de 1859, durante a visita do imperador à província de Pernambuco. Louças que serviram ao casal estão expostas aos visitantes. Outra curiosidade do século 19 no centro cultural é a imagem de Nossa Senhora da Apresentação com marcas do tiroteio ocorrido na Igreja do Rosário dos Pretos em 27 de junho de 1880, na Hecatombe de Vitória.

Conflito político entre dissidentes do Partido Liberal de Vitória de Santo Antão, às vésperas da eleição municipal, a hecatombe deixou quase 20 pessoas mortas dentro do templo católico e no entorno da edificação, informa Maria de Fátima Alves. “A igreja passou muito tempo fechada depois desse movimento”, diz ela.

A cadeira do cônego Bernardo, que atuava na cidade em 1880, no ano da hecatombe, também faz parte do acervo do museu. É uma peça curiosa para as modernidades do século 21. Embaixo do assento, que pode ser levantado, há um espaço reservado para o penico. Uma engenhoca precursora dos vasos sanitários em banheiros.

Instituto Histórico de Vitória de Sto. Antão PEDesenvolvimento
Vitória de Santo Antão é uma cidade fundada no século 17 e com grande desenvolvimento do século 19 em diante, observa o arquiteto José Luiz Mota Menezes, sócio do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. “A maioria dos engenhos de cana-de-açúcar do município eram do século 19”, completa Maria de Fátima. O museu recebeu peças que pertenceram a muitos deles, da casa-grande, da senzala e das fábricas.

Há canga para carro de boi, martelo de madeira para quebrar o açúcar, ferro para marcar gado, louça da casa-grande, ferramentas como foice, enxada e estrovenga, carro para o deslocamento do senhor de engenho (cabriolé) e objetos de suplício de escravos. O século 20 contribui com um acervo diversificado que vai da ancoreta (barril) para transporte de cachaça a urnas eleitorais onde se depositava o voto em papel.

O visitante encontrará modelos variados de máquinas de costura que vestiram moças e rapazes de Vitória, máquinas de moer carne e milho, moinho de café, ferros de engomar, máquinas fotográficas e mimeógrafos usados por professores para rodar provas escolares colocadas nas carteiras dos estudantes com papel ainda cheirando a álcool.

“Nosso desafio é manter essa história e torná-la atrativa, principalmente para os mais jovens”, destaca Iran Maciel. O instituto tem cerca de 100 sócios (incluindo os correspondentes) e sobrevive da contribuição dos associados e de trabalhos realizados com parceiros. O museu em Vitória de Santo Antão funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h. E abre nos fins de semana com agendamento prévio pelos números 81 98535-5808/99632-9021/98740-7491. O ingresso custa R$ 5 (preço individual), com gratuidade para escolas públicas.