• Ceclin
nov 01, 2008 0 Comentário


Interiorização do progresso

Publicado em 01.11.2008

do Editorial deste sábado do JC.

A descentralização da industrialização, a expansão do desenvolvimento para regiões mais afastadas dos grandes centros são objetivos adotados há muito por governos de diversas tendências, em todo o mundo e não apenas em países que ainda não entraram no clube dos ricos. França e Itália, países muito mais desenvolvidos que o Brasil, têm seus órgãos dedicados a encaminhar novos investimentos para regiões atrasadas.
O Sul da Itália, a Sicília têm sido beneficiadas pela Cassa per il Mezzogiorno, semelhante à nossa Sudene, que se apóia em incentivos fiscais para investidores, externos ou nacionais, que se dispuserem a aplicar ali.
Até os Estados Unidos, tão avessos a intervenções do Estado, quando as crises passam por longe dali, e à regulação da economia, têm a sua Tennessee Valley Authority, criada pelo presidente Franklin Roosevelt na depressão dos anos 1930.
Em nosso Estado, desde os anos 50 do século passado, quando foram criadas a Comissão de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco (Codepe, hoje Condepe/Fidem) e a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), sucessivos governos têm proclamado o propósito de estender o crescimento econômico, o progresso ao interior.

O governador Miguel Arraes deu muita ênfase à eletrificação rural, o que é básico. Outros se preocuparam com a implantação de distritos industriais, no Cabo de Santo Agostinho, no bairro recifense do Curado, entre outros. Mas, na prática, a interiorização do desenvolvimento foi muito lenta e só vem crescendo mesmo ultimamente, com a consolidação do complexo industrial e porto de Suape, projeto lançado nos anos 70 pelo governador Eraldo Gueiros.
O município de Ipojuca, onde se situa Suape, e o vizinho Cabo de Santo Agostinho têm sido contemplados com investimentos industriais, imobiliários e implantação de unidades de ensino técnico. Outros bem afastados, como Bom Conselho, Belém de São Francisco, Vitória de Santo Antão, ganharam fábricas da Perdigão, da Netuno e da Sadia, num investimento de mais de R$ 600 milhões com criação de mais de 3 mil empregos. Temos o pólo de confecções em torno de Toritama, o de fruticultura em Petrolina e o farmacoquímico de Goiana, entre outros. Mas é preciso lembrar que Pernambuco tem quase 200 municípios. Estamos certamente no caminho da interiorização do desenvolvimento, mas ainda temos de andar muito.
Como explica o economista Sérgio Buarque, “as empresas buscam se localizar nos espaços que oferecem estrutura competitiva. Para criar um ambiente atrativo é preciso oferecer infra-estrutura, mão-de-obra capacitada e inovação tecnológica”. Ele acrescenta que algumas empresas precisam estar próximas do mercado consumidor, outras querem ficar próximas das matérias-primas. O governo oferece incentivos fiscais e outros, que vão aumentando à medida que a opção das empresas passa da Região Metropolitana para a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão.

Mas o presidente da AD-Diper, Jenner Guimarães, observa que a tendência das empresas que se estabelecem no interior, ou para lá migram, é buscar municípios ou microrregiões já em processo de desenvolvimento, como Caruaru, Petrolina e os pólos econômicos consolidados.
No setor de oferta de infra-estrutura, um gargalo está no atraso do projeto de levar gás natural para o interior através do gasoduto Recife-Caruaru, que está com grande atraso, o que já impediu que Vitória de Santo Antão recebesse uma indústria cerâmica. A paulista Gyotoku adiou seus planos de investimento. A Copergas está reavaliando o plano de estender esse gasoduto até o pólo gesseiro do Araripe, temendo subutilização. O que significa que as indústrias que exploram a gipsita continuarão queimando lenha e colaborando para o desmatamento daquela microrregião.

São muitos problemas a enfrentar e resolver. E o da formação de mão-de-obra não é o menor deles. Os governos federal e estadual, cientes disso, estão empenhados na construção de unidades de ensino tecnológico em Caruaru, Serra Talhada, Araripina, Salgueiro, Garanhuns, Ouricuri e Afogados da Ingazeira.
(Jornal do Commercio).