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set 23, 2016 0 Comentário


Estádios de futebol devem exibir mensagem contra o racismo

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Por Luciano Galvão Filho

Comumente lembrado por seus benefícios à saúde, à educação dos jovens e à inclusão social, o esporte é também cenário para a violência. No futebol, a mais popular das modalidades, proferir ofensas a atletas, árbitros e torcedores rivais virou rotina, e mesmo um ritual, para quem acompanha os jogos. Um tipo específico de hostilidade, no entanto, tem despertado a atenção de dirigentes, da imprensa, de ativistas e do Poder Público: o racismo.

Relatório mais recente divulgado pela entidade “Observatório da Discriminação Racial no Futebol” contabilizou, apenas em 2015, 24 supostos casos de racismo durante partidas profissionais no Brasil. O documento cataloga episódios tanto nas arenas construídas para a Copa do Mundo quanto em jogos de campeonatos regionais. No último mês de fevereiro, Pernambuco também registrou esse tipo de manifestação, quando um torcedor do Náutico foi filmado imitando um macaco, voltado para a torcida do Sport, durante clássico válido pelo torneio estadual.

Na esteira das ocorrências, iniciativas têm surgido para desencorajar a prática – considerada crime pela legislação brasileira. Desde julho, os responsáveis por estádios de futebol em Pernambuco são obrigados a afixar placas em locais de fácil visibilidade com os dizeres “Diga não ao racismo”, por força da Lei nº 15.776/2016. A norma foi aprovada pela Assembleia Legislativa em abril, por proposta do deputado Bispo Ossesio Silva (PRB). “Casos de racismo não condizem com a grandiosidade dos clubes pernambucanos”, considera o parlamentar, que apresentou o projeto em reação ao acontecido na partida entre Náutico e Sport. “Essa matéria tem por objetivo conscientizar a população de que racismo é algo nefasto. Acreditamos que a mensagem irá intimidar os torcedores a incorrer em tal prática”, afirma.

A Arena de Pernambuco, que sedia jogos dos três grandes clubes do Estado, informou, por meio da assessoria de imprensa, que já cumpre a exigência em jogos do Campeonato Brasileiro, com a disposição de placas no gramado e na entrada principal, e com a exibição da mensagem nos telões durante os intervalos das partidas. A direção do Sport, responsável pela Ilha do Retiro, informou, em nota, que “está se adaptando à lei, com a expectativa de que as placas estejam instaladas em breve”. Procurada, a assessoria do Santa Cruz, que gere o Estádio do Arruda, não emitiu resposta.

Contexto - Para o sociólogo Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco, o problema não nasce nos campos de futebol, mas na sociedade. O discurso racista, segundo ele, apenas reverbera nas arquibancadas. “O futebol não está isolado do contexto. Como temos uma sociedade bastante racista, os atos dessa natureza são, muitas vezes, naturalizados”, explica, lembrando que boa parte dos jogadores profissionais são negros, de origem pobre, que encontram no esporte oportunidade de ascensão econômica, mas que, ainda assim, não ficam livres da discriminação.

Barreto observa que os estádios também são palco para manifestações misóginas, homofóbicas e para “atos de natureza preconceituosa contra outros vários segmentos”, o que justificaria campanhas de conscientização mais abrangentes. O pesquisador acredita que a solução passa pela educação e pela repressão às práticas injuriosas. “As manifestações criminosas costumam acontecer na coletividade, não têm rosto. No entanto, sendo possível a identificação, a punição deve prevalecer”, defende.

O presidente em exercício do Náutico, Ivan Brondi, explica que o clube, apesar de não realizar ações específicas, “é contra qualquer tipo de discriminação e mantém posicionamento de repúdio ao racismo”. Já o dirigente do Sport, João Martorelli, afirma que o time promove campanhas em favor do respeito entre as torcidas, “buscando a construção de uma sociedade fundamentada nos princípios da igualdade”. A Federação Pernambucana de Futebol e o Santa Cruz também foram contatados, mas não se pronunciaram sobre o assunto.