• Mata Sul
  • Ceclin
ago 07, 2017 0 Comentário


Conheça a história do escritor vitoriense Walther Moreira Santos

Escritor foi o vencedor do Prêmio Cepe Nacional na categoria Poesia deste ano. Foto: Divulgação

Escritor foi o vencedor do Prêmio Cepe Nacional na categoria Poesia deste ano. Foto: Divulgação

Romancista, poeta e ilustrador, ele venceu o último Prêmio Cepe Nacional na categoria Poesia. Filho de um motorista de ônibus, Walther recebia do pai os livros esquecidos. 

por Valentine Herold, do JC

Quem diria que um livro esquecido dentro de um ônibus da linha interestadual Recife/Aracaju poderia ajudar a definir a carreira de escritor de um garoto? O livro em questão era “Chamado Selvagem” e o menino é Walther Moreira Santos, romancista, poeta e ilustrador pernambucano que venceu o último Prêmio Cepe Nacional de Literatura na categoria Poesia com a obra “Arquiteturas de Vento frio”.

Nascido em Vitória de Santo Antão, município da Zona da Mata Sul pernambucana, Walther passou a infância em Bonito, onde ainda não havia biblioteca nem livraria. O pai, Antônio, era motorista de ônibus e, quando voltava para casa, trazia para o filho livros esquecidos por passageiros. Um dos que mais marcou o agora escritor foi justamente o romance de Jack London, numa tradução de Clarice Lispector. “Passei anos lendo e relendo, é um daqueles livros que mudam para sempre a vida da pessoa”, diz. Do gosto pela leitura adveio a necessidade da escrita e, com 15 anos, Walther já estava ganhando seu primeiro concurso – de poesia, promovido pela Academia Pernambucana de letras (APL).

livro de walther moreira

Hoje, com 32 livros publicados e 60 ilustrados, o autor tem o privilégio de poder de viver da literatura. O dia é consagrado ao desenho, em seu ateliê de Gravatá, tomando chá verde, e à noite ele se dedica à escrita na companhia de uma taça de vinho. Mas atenção, nem só de momentos solitários se faz a carreira de Walther Moreira Santos. “Gosto de gente”, diz, “não sou um autor recluso, gosto e acho necessário viajar e conhecer nossa gente. Viajo o Brasil também graças a meu trabalho de ilustração de livros infantis e esse contato com as pessoas, essas viagens são também materiais para a escrita.” Em maio deste ano, passou uma semana em Santa Catarina a convite do projeto “A arte da palavra”, do Sesc, e no mês seguinte seguiu para Paris com a finalidade de lançar o livro infantil bilíngue “O Pé de Meia e o Guarda-Chuva”– com texto de Henrique Rodrigues.

De Vitória de Santo Antão para o mundo, e do mundo para Gravatá. Após ter morado 10 anos no Recife, Walther decidiu retornar às suas origens da Zona da Mata e voltou à sua cidade natal, mas mora hoje numa casa rodeada de verde na cidade serrana. Durante os anos que passou na capital do Estado, o escritor exerceu a profissão de advogado e chegou também a trabalhar por dois anos na Polícia Federal. “Sou advogado de formação, mas estou há 17 anos de férias do escritório. Qualquer coisa meu paletó ainda está guardado”, fala rindo.

Difícil mesmo imaginá-lo fazendo outra coisa a não ser criar histórias, desenhos e versos. Quando questionado se, quando começou a escrever, pensava que iria um dia poder viver da profissão de artista, Walther é categórico: “Não imaginava nunca. É muito bom poder viver do que se ama.” A dedicação exclusiva ao ofício da escrita teve início no 2000, quando ele tirou seis meses de licença do seu emprego para se dedicar aos estudos com o intuito de passar em um concurso público. “Nesse meio tempo, eu escrevi muito, comecei a ganhar concursos e as coisas foram acontecendo nesse sentindo”, relembra. Pois, além do Prêmio Cepe, Walther Moreira já foi vencedor dos prêmios Xérox do Brasil em 2001 com a novela “Ao Longo da Curva do Rio”, Casa de Cultura Mário Quintana, dois anos depois, com seu romance “Um Certo Humor de Asas”, e levou para casa o Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade em 2014 pela sua obra “O Que em Nós se Eterniza”, entre outros.

Leia também:

FIG 2017: Livros de vencedores do Prêmio Cepe Nacional de Literatura são lançados no festival 

4º Prêmio Pernambuco de Literatura lança obras vencedoras

Vitoriense entre os vencedores do Prêmio Cepe Nacional de Literatura

“Arquiteturas de Vento Frio” foi lançado nô mês passado no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), mas apesar de a data impressa na segunda página do livro ser 2017, os poemas ali reunidos vêm de um processo de criação muito mais distante no tempo. “É um livro que estava guardado há quase uma década. Sua premiação por unanimidade, por um júri composto por Everardo Norões, Antônio Carlos Viana, Márcia Denser e Carola Saavedra é um mistério para mim”, brinca. O livro é dividido em quatro partes: “Primeiro Carro Abre-Alas”, “Segundo & Rubro Carro Abre-Alas”, “Arquiteturas de Vento Frio” e “Finais”.

Walther Moreira SantosCOMO DESIGNER

No blog que mantém, Walther se autodenomina “escritor e ilustrador”. Mas, para além do mercado literário, ele também vem transitando nos últimos meses pelo mundo da moda. Em dezembro do ano passado recebeu um convite da marca Vida Design e criou estampas para bolsas, lenços e colares. Em breve, Walther também se prepara para lançar uma linha de cerâmica. A nova função lhe agrada bastante, mas faz tudo isso “sem tirar o foco da literatura. Quando você é criança tem o costume de fazer de tudo, aí crescemos e achamos que existe isso de ter que ser algo, se encaixar em alguma coisa. Acho que nunca perdi esse espírito das crianças.”

Aliás, a criançada tem um lugar muito especial na vida do escritor e o trabalho de ilustração de livro infantil é algo que ele não quer perder de vista. “Se você não trabalhar essa garotada desde cedo com literatura, não vai haver formação de novos leitores. Se as livrarias estão vazias é porque esse hábito não foi trabalhado com as crianças, diferentemente do futebol. Por que os estádios de futebol estão sempre cheios? Porque temos uma cultura desse esporte, mas não temos uma cultura da leitura como existe na Europa ou nos Estados Unidos.”

Romance, conto, poema, ilustração, criação de estampas e de cerâmica. Para Walther Moreira Santos existe uma unidade, uma linha criadora que une todos os segmentos de seu trabalho. Ele acredita que em qualquer dos casos, está contando uma história. “Não importa o formato, a narrativa nunca me abandona. Até quando os sonhos costumam ter sentido, com início, meio e fim, é sempre um sonho colorido”, finaliza.