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dez 05, 2008 0 Comentário


Águas poluídas

Publicado em 05.12.2008

A poluição dos nossos rios, canais, águas em geral constitui um dos piores flagelos impostos ao ser humano pelo leque formado com agressões à natureza. Só muito recentemente é que estamos nos conscientizando de que a água é um bem natural que pode se esgotar devido ao mau uso que dele se faz, ao esbanjamento, à poluição. Rios e fontes, outrora cristalinos, limpos, com água potável, transformaram-se, entre nós, em depósitos de lixo e dejetos, em esgoto a céu aberto. O estranho modo brasileiro de fazer da política um rendoso negócio, através do desvio e privatização do dinheiro público, levou-nos a tal situação, por falta, ou dilapidação, dos indispensáveis investimentos em saneamento. Esgotos sanitários são despejados nos rios sem nenhum tratamento. Nossas praias não estão livres desse processo suicida.
Há alguns dias, reportagem do Jornal do Commercio nos informou sobre a contaminação do Rio Timbó, no norte do Grande Recife, por zinco, manganês, cromo e ferro, metais nocivos à saúde humana e dos animais irracionais. O que é causado pelo homem, animal racional que muitas vezes age como se irracional fosse. A irresponsável ação deve-se a donos de indústrias, minerações, a resíduos urbanos e agrícolas, escoamento de águas pluviais, e foi constatada por estudo do Itep. O autor do estudo, Tibério Noronha, explicou à repórter Verônica Falcão que esses metais pesados vão se acumulando nos organismos dos animais aquáticos, sobretudo dos que vivem no fundo do rio pesquisado (que corta Paulista, Abreu e Lima e Igarassu), como o sururu, abundantemente colhido no estuário fluvial, e terminam por afetar o homem que os consome.
À poluição mais comum por dejetos e lixo junta-se a poluição industrial. Os rios que deságuam no estuário do Timbó recebem efluentes industriais e esgoto doméstico de regiões urbanizadas, loteamentos legais e ocupações irregulares. O manguezal tem a capacidade de reter esse tipo de resíduo químico, o que termina sendo benéfico para outros ambientes, como o mar, pois age como barreira biogeoquímica, ensina Noronha. Ao menos uma vantagem para quem está longe dali e não come sururu e outros organismos contaminados.
Mas quanto ao mérito da questão, é intolerável que autoridades públicas estejam deixando passar tão nociva irregularidade sem fiscalização, advertência, muito menos punição. O estudo deve servir de advertência a quem gosta de consumir a fauna miúda dos mangues e, sobretudo, para alertar os poderes públicos. Tanto descuido com a saúde pública não pode ser tolerado.

Infelizmente, o problema não está confinado ao Rio Timbó. Oxalá o fosse, pois sua solução seria mais fácil e rápida. As irregularidades e perigos à saúde humana se espalham por outros rios, estuários, mangues do nosso Estado e de todo o País. Recentemente, a opinião pública, sobretudo do Sertão baiano, ficou alarmada com a notícia de que as águas de um poço que abastece a população de Caetité, a 757 km de Salvador, estão contaminadas por urânio, metal radiativo. O que foi constatado por exames laboratoriais.
Os níveis de contaminação estão cinco vezes acima do que é considerado tolerável pelo homem.

Habitantes da região contígua a Caetité já se queixam de doenças provocadas pelo excesso de radiação. Negócios e turismo estão sofrendo prejuízos. Como de costume, autoridades e responsáveis ocultam o problema. Foi preciso o alerta de uma organização internacional, Greenpeace, para que órgãos baianos de preservação ambiental passassem a avaliar a questão.
Autoridades do governo baiano já decidiram pela interdição do referido poço, mas a INB, empresa pública federal que explora o urânio ali, continua negando que tenha havido contaminação tão grande.

O Ministério Público Federal decidiu pedir novas amostras e exames a uma equipe independente de técnicos. Como o local é produtor de itens como gado e hortifrutigranjeiros, e também ponto de passagem de turistas que demandam o norte de Minas Gerais e o Centro-Oeste, as reclamações dos prejudicados pelo afastamento da clientela são grandes. Mais vale cuidar para que tais fatos não aconteçam que esperar acontecer. Quem sabe faz a hora.
(Jornal do Commercio).